Sem-terra

Radiodocumentário relembra 21 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás

Foram mortos 21 sem-terra em uma ação da Polícia Militar para liberar estrada ocupada por uma marcha do MST

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Sobreviventes em frente ao Monumento das Castanheiras foram levadas ao exato local do massacre, na Curva do S / Marcelo Cruz

A Radioagência Brasil de Fato inicia neste sábado (15) uma série sobre os 21 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás. No dia 17 de abril de 1996, foram assassinados 21 sem-terra em uma ação da Polícia Militar do estado do Pará para desobstruir um trecho da rodovia PA-275, que estava ocupada por trabalhadores para reivindicar reforma agrária. Nesta primeira parte, confira as lembranças de quem sobreviveu à chacina. No capítulo dois, que será publicado na segunda-feira (17), serão apresentadas as marcas físicas, psicológicas e sociais que ainda estão presentes no cotidiano dos sobreviventes.  

Confira o primeiro capítulo:

"Todo dia, todo dia, todo dia. Quando eu me lembro, fecho os olhos, parece que eu estou vendo aquilo tudo. Nunca saiu da minha cabeça, nunca. Aquele dia para mim foi uma tristeza muito grande, porque a gente vê o nosso filho baleado".

É assim que Maria Raimunda Agapito, de 62 anos, lembra do dia 17 de abril de 1996 – data em que ocorreu o Massacre de Eldorado dos Carajás.  

Há vinte e um anos ocorria o assassinato de trabalhadores sem terra, na Curva do S, trecho da rodovia PA-275, no sul do Pará.  O episódio se tornou emblemático para retratar a violência no campo que ocorre no país.

A ação da Polícia Militar para liberar a estrada a qualquer custo, na cidade de Eldorado dos Carajás, ocupada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, deixou 21 mortos e 69 feridos. Do lado da polícia, nenhuma morte e alguns feridos leves.

A Radioagência Brasil de Fato foi até a região conversar com sobreviventes, além de familiares dos mortos, e mostra as marcas ainda presentes do massacre.

“Estava todo mundo tranquilo, fazendo a nossa caminhada, nossa marcha. Paramos para descansar, quando a gente deu fé já chegou dois ônibus de policiais. Um vinha de Marabá e outro de Parauapebas. A gente ficou cercado no meio. Até a gente pensou que iam só amedrontar, fazer um clima para a gente sair. Nunca pensamos que eles vinham para matar”, relembra Raimundo Gouveia, 61 anos.

“Tinha muita gente correndo. Antes do meu tio ser baleado, ele gritou para eu deitar. "Deita, deita no chão", ele disse. Aí eu deitei e fiquei. Depois eu já escutei minha prima dizer que o meu tio estava atirado. Aí ficou aquele tumulto por pelo menos quarenta minutos só escutando aqueles tiros. Na época eu tinha 15 anos”, relata Marlene Moreira, 35 anos.

Raimundo Gouveia, de 61 anos, e Marlene Moreira, de 35 anos, são a memória viva do massacre.

Há 21 anos, naquele 17 de abril, um grupo de mais de mil e quinhentas pessoas marchava rumo a Belém. Elas reivindicavam a desapropriação da Fazenda Macaxeira, em Eldorado dos Carajás, ocupada pelo MST desde novembro do ano anterior.  

Após sete dias de percurso, cansadas e sem comida, as famílias decidiram ocupar a estrada. O objetivo era pressionar o governo do estado, na época comandado por Almir Gabriel, do PSDB.

Jorge Néri, dirigente do MST, lembra que havia uma negociação com o governo para disponibilizar ônibus para que os sem-terra seguissem até a capital paraense. Mas, em vez de apoiar os sem-terra, o plano do governo era outro, segundo ele.

“Uma ação exemplar do ponto de vista do estado e das oligarquias da região no sentido de aniquilar fisicamente as lideranças do movimento sem-terra e também fazer uma ação que criasse impacto nessa região. Começavam a se levantar várias ocupações de terra, então quem sabe uma ação dessa exemplar poderia por fim tanto ao MST que era muito recente ainda, como servir de exemplo para os movimentos sociais que supostamente poderia fazer a luta pela terra”.

Liberar a rodovia, mesmo que fosse necessário o uso da força. Esta foi a ordem, segundo o Ministério Público, dada pelo secretário de Segurança Pública do Pará na época, Paulo Sette Câmara, ao comando da PM naquele dia 17.

Mais de 150 policiais, sendo 85 de Marabá e o restante de Parauapebas, cada tropa de um lado da estrada, encurralando os trabalhadores.

Eurival Carvalho, conhecido como Toto, de 49 anos, relata que os policiais tinham como alvo as lideranças sem-terra da região.

“Eles chamavam: "Ei, Ferrari, Toto, vocês não são bons? Então apareçam. Vocês são covardes, você saíram. Apareçam aqui". Dava para ouvir, eles estavam no mato e dava para ouvir. O comando regional, especialmente aqui de Parauapebas, eles conheciam todos nós. Eu sou um dos sobreviventes, como vários outros companheiros tivemos a felicidade de não sermos atingidos por bala”, relatou.

Muitas das mortes do Massacre de Eldorado dos Carajás ocorreram com tiros à queima-roupa, conforme laudo necroscópico. (tiros)

Passados 20 anos, os dois comandantes das tropas que encurralaram os sem-terra estão presos. O coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Oliveira receberam penas de 280 e 158 anos, respectivamente. Os policiais de patentes inferiores também foram a julgamento, mas foram todos absolvidos.

O promotor do caso, Marco Aurélio Nascimento, explica que a condenação dos envolvidos foi dificultada pela própria ação dos policiais que destruíram provas.

“Foi uma violência desmedida. O que eu coloco na denúncia é que foi uma verdadeira carnificina. A quantidade de tiros é uma coisa assombrosa. No dia seguinte nós fomos ao local e tinham cápsulas espalhadas por todo lado. Foram centenas de tiros. Uma parte dos sem-terra foram, inclusive, feridos e mortos com instrumentos de arma branca. Os policiais retiraram a identificação do uniforme, o local do crime ficou inidôneo. Houve perícia de local de crime, mas sem os corpos. Eles tomaram uma série de providências que dificultou e tornou quase impossível determinadas provas”, apontou.

A tese inicial de confronto do governo estadual e reproduzida por grandes veículos de imprensa foi desmontada pelo exame que investigou as circunstâncias da morte dos camponeses e pela análise das imagens feita por um canal de tevê local.

O laudo foi produzido pela Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, a pedido da Promotoria. O perito Ricardo Molina, que assinou o documento, destaca as conclusões.

“Atrás da linha formada pelos policiais militares já tinha um sem-terra caído. Quando a gente ampliou a imagem e foi ver atrás, a gente viu que ele já estava baleado. Antes dessa discussão de quem deu o primeiro tiro, ele já estava baleado e não conseguia se levantar do chão. Então quer dizer: ele já tinha sido atingido por disparos da Polícia Militar e já estava caído no chão. Aquele grupo de sem-terra que estava se deslocando ali na direção da linha da polícia, na verdade estavam querendo resgatar o Amâncio. Eles não estavam atacando a polícia. Queriam se aproximar porque viram que o Amâncio estava caído atrás. E aí já começou o tiroteio, vários sem-terra foram atingidos”, destacou.

Dados da Comissão Pastoral da Terra apontam que entre 1985 e 2016, 1.834 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo no país. Deste total, apenas 112 casos foram julgados, e houve a condenação de apenas 31 mandantes destes assassinatos. O relatório de 2016 destaca o maior número de assassinatos em conflitos no campo dos últimos 13 anos, com 61 assassinatos.

Radiodocumentário “Feridas abertas: 21 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás”. Capítulo 1: Memórias do massacre.

Reportagem: Camila Maciel e Maura Silva

Roteiro: Camila Maciel

Edição: Beatriz Pasqualino

Produção e locução: Anelize Moreira

Operação de áudio e sonorização: André Paroche e Jorge Mayer

Apoio: Julia Dolce, Nadine Nascimento e Victor Tineo.

Esta é uma produção da Radioagência Brasil de Fato.

 

Edição: Anelize Moreira