Memória

Instituto dos Pretos Novos pode fechar as portas por falta de recursos

Apesar das promessas da prefeitura de novos repasses, coordenadores estão apreensivos

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Memorial foi criado a partir da descoberta do sítio arqueológico Cemitério dos Pretos Novos / Museus do Rio

Com futuro ainda incerto, Instituto dos Pretos Novos pede mais recursos para manutenção da memória da chegada dos negros escravizados no Rio de Janeiro e a celebração da herança africana.

O memorial foi criado a partir da descoberta de um sítio arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, localizado na Gamboa, bairro da zona portuária do Rio.

Escavações mostraram que era lá que enterraram os restos mortais de africanos escravizados no século 18, que não resistiram ao degradante trajeto dos navios negreiros.

A descoberta das ossadas foi feita por Mercedes Guimarães e seu marido, há mais de 20 anos, quando eles reformavam a casa onde moravam e que hoje se transformou no Instituto dos Pretos Novos.

Porém, o centro cultural pode fechar as portas por falta de apoio financeiro.

O contrato que tinham com a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto foi encerrado. Apesar das promessas da prefeitura de novos repasses, Merced ainda esta apreensiva:

"Na reunião foi acordado que eles iam fazer 15 mil livretos nossos, iam dar R$ 8 mil agora para maio, para não fechar, porque a gente teve doações para abril, e que depois de 90 dias iria sair R$ 100 mil para o ano. Eu não estou acreditando muito."

O grupo Roda do Cais do Valongo realizou um ato neste sábado pela manutenção do Instituto dos Pretos Novos.

Convidado do evento, o antropólogo e coordenador da candidatura do Cais do Valongo a patrimônio da humanidade, Milton Guran diz que a região portuária do Rio foi o mais importante ponto de desembarque de pessoas escravizadas na América e o Cemitério dos Pretos Novos faz parte desta história:

"Porque nós chamamos de cemitério, mas não é cemitério. É um aterro sanitário. Isso aqui é um lixão em que corpos de seres humanos eram jogados junto com corpos de animais, cacos de lixo urbano, pedaços de boi e tudo mais. Então este instituto, preservado pela Mercedes e pelo Petrucio é a prova viva da perversidade do sistema escravocrata brasileiro."

O Cais do Valongo já é declarado patrimônio nacional e carioca, pode se tornar patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESCO. O resultado da candidatura será anunciado em junho deste ano.

Milton Guran defende mais investimento na preservação desta memória.

"Como é que nós vamos convencer a Unesco de que o Estado brasileiro pode manter, preservar, conservar e dar visibilidade e dignidade ao Cais do Valongo como patrimônio da humanidade se, neste mesmo momento, estão deixando fechar o Instituto dos Pretos Novos por uma quantia irrisória?"

A Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro diz que o Instituto dos Pretos Novos promove ação de educação inestimável, mas o convênio de patrocínio tinha caráter temporário. Desde 2013, os repasses para o custeio do centro cultural somaram R$ 205 mil com recursos do Porto Maravilha Cultural.

Procurada, a Secretaria de Cultura disse que a prefeitura vai manter o aporte para o funcionamento do instituto, porém ainda está definindo o modelo e qual órgão municipal será responsável pelo pagamento.

O valor a ser patrocinado ainda está em negociação. Segundo a Secretaria de Cultura, foi pedido que a instituição faça um novo levantamento de custos.

Edição: Radioagência Nacional