Massacre

"Ruralistas têm respaldo para fazer o que quiserem" diz Comissão Pastoral da Terra

Antônio Canuto, secretário da entidade, comenta a massacre de Colniza e o assassinato recente de integrante do MST

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O secretário da Coordenação Nacional da CPT, Antônio Canuto. / Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O conservadorismo do Congresso e do governo golpista de Michel Temer são elementos decisivos para o aumento do número de homicídios em conflitos do campo. É o que analisa Antônio Canuto, secretário da Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra, a CPT, que comentou com a Radioagência Brasil de Fato o recente homicídio do militante do MST Silvino Nunes Gouveia e o massacre de Colniza.

Até o momento foi confirmado o assassinato de oito moradores do assentamento Taquaruçu do Norte, localizado em Colniza, no Mato Grosso. A matança ocorreu após pessoas encapuzadas invadirem o terreno e torturarem o grupo de sem-terra na última sexta-feira, dia 21. Já o caso de Silvino Gouveia ocorreu no domingo, dia 23, quando o militante foi assassinado com 10 tiros no Assentamento Liberdade, em Periquito, Minas Gerais.

Os casos ocorreram na mesma semana do aniversário de 21 anos do histórico massacre de Eldorado dos Carajás, e se somaram ao alto número de homicídios de militantes em conflitos por terras no país. De acordo com o relatório anual divulgado pela CPT no dia 17 de abril, os assassinatos no campo cresceram 22% entre 2015 e 2016. Canuto destaca que em 2017 o número de assassinatos de pessoas no campo já é alarmante: 

"O número de 61 assassinatos que a CPT registrou em 2016 é o maior número de assassinato de pessoas do campo desde 2003. Então, houve um avanço considerável. E agora com este assassinato do militante do MST em Minas Gerais, neste ano já são 20 pessoas assassinadas".

Você considera que há um simbolismo no fato de essa chacina ter acontecido bem na semana do aniversário do massacre de Eldorado dos Carajás?

Significa que de fato a impunidade no campo é tanta que o assassinato pode acontecer porque se sabe que as pessoas envolvidas nisso não serão punidas, isto é um elemento histórico desde sempre. São pouquíssimos casos que vão a julgamento e quando vão, são poucos os que são condenados. Possivelmente isso vai se repetir, o pessoal vai dizer que não foi possível identificar, prender, apesar de a polícia já ter identificado um. Acho que vai ser muito complicado primeiro identificar, encontrar e punir. O caso de Colniza é uma situação que se arrasta desde 2004. Em 2007, houve ataques dos fazendeiros com sequestro e torturas e neste ano pelo menos três lavradores foram assassinados. Então a chacina está dentro desse quadro de violência que se arrasta.

Podemos notar algum tipo de relação entre o Congresso conservador e do governo Temer e esse aumento nos assassinatos em conflitos do campo?

A gente tem visto nestes últimos meses, desde o momento que começou a discussão de impeachment, a bancada ruralista e todo o mundo ruralista adquiriu uma força impressionante e se sentem os donos do pedaço. Se o governo não resolver eles resolvem por conta própria porque tem todo o respaldo dessa crise política e desse momento que a gente vive. Eles se sentem seguros para praticar tudo o que quiserem, porque tem o poder executivo, o legislativo e muitas vezes o próprio judiciário ao seu lado.

Edição: Mauro Ramos