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Greve Geral paralisa Curitiba; marcha reúne 30 mil pessoas no centro da capital

A mobilização massiva nas ruas quebrou o vazio e o silêncio provocado pela paralisação

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Qualquer ameaça aos direitos sociais "merece imediato repúdio", disse o padre Alexander Cordeiro Lopes / André Chaves

Quem passeava por Curitiba na manhã dessa sexta-feira (28) e não estivesse avisado da Greve Geral certamente ficaria assustado. Terminais de transporte público, ruas e praças completamente vazias. Apenas carros transitavam. Enquanto isso, em pontos diversos da cidade, movimentos sociais e organizações sindicais promoviam atos e protestos localizados.

Servidores públicos, bancários, vigilantes, professores, motoristas e cobradores de ônibus, petroleiros, metalúrgicos e diversas outras categorias cruzaram os braços contra as reformas da previdência e trabalhista do governo ilegítimo de Michel Temer. Após os atos localizados, os trabalhadores marcaram presença na concentração realizada na Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico da capital paranaense. Segundo a organização, 30 mil pessoas participaram da marcha que seguiu até a Praça Tiradentes, em frente à Catedral de Curitiba.

“A nossa luta contra estas reformas que retiram direitos. Não estamos discutindo qualquer outra pauta, como tentam desinformar alguns veículos de comunicação. Há quem diga que é por conta do imposto sindical. Não é. A CUT sempre foi contra o imposto sindical. Somos contra a reforma da previdência, a reforma trabalhista e outras propostas que retiram e sonegam direitos da classe trabalhadora”, afirmou a presidenta da CUT Paraná, Regina Cruz.

O professor da rede pública estadual, Emerson Pereira, de 44 anos, ganhou destaque na manifestação. Ele levou diversos balões infláveis em forma de patos. Foi seguido por diversas pessoas que tentaram, em vão, comprar alguns dos brinquedos. “Nossa ideia foi de apresentar o verdadeiro pato, que é justamente o povo. Não as indústrias e o comércio”, avaliou.

Patos da Fiep

Os patos novamente foram destaque durante a marcha que passou em frente ao prédio da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). Lá os manifestantes cantaram palavras de ordem para pessoas que olhavam e filmavam de dentro dos seus escritórios. O prédio, da iniciativa privada, estava cercado de policiais militares pagos com recursos públicos desde o início da manhã.

A Fiep, a exemplo de outras entidades patronais, estimularam diuturnamente o golpe que derrubou a presidenta eleita Dilma Rousseff em 2016 e geraram o caos social por qual o País passa. “Os banqueiros também foram um dos principais financiadores do golpe e agora vão ter benefícios diretos com as reformas em curso. Acabando com a previdência pública eles é que vão lucrar com a previdência privada. A pauta de hoje, que leva à greve geral, é justamente o que os banqueiros desejam que aconteça no Brasil”, afirmou o presidente da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec-PR), Júnior César Dias.

As reformas citadas por César Dias, basicamente, são as reformas trabalhistas e da previdência, além do Projeto de Lei que escancara as terceirizações no Brasil. Eles foram aprovados com uma velocidade incomum no legislativo. “Eles têm pressa porque sabem que estão cometendo crimes contra a cidadania, contra a nossa independência como País. Tem pressa porque a informação que o povo vai tendo aos poucos pesa contra eles. A informação que as empresas de comunicação, que são concessões públicas, sonegam e que teriam obrigação de dar, mas não estão dando”, analisou a secretária de relações com os movimentos sociais da CUT Brasil, Janeslei Albuquerque.

Esse açodamento, inclusive, é apontado como um dos motivos que transformou em uma tendência a mobilização social em defesa dos direitos fundamentais no Brasil. A Greve Geral de abril de 2017 já é apontada como uma das principais na história do País.

Mas, para que essa tendência continue, é preciso mobilizar e organizar, segundo o representante do Movimento Popular por Moradia, Paulo Berzotti Filho. “É necessário internalizar a meta da unidade e a construção de um programa comum, claro, objetivo e de luta. É uma tendência, mas é preciso trabalhar para que isso continue”, afirmou.

Simbolismo

A Greve Geral neste 28 de abril também carregou, simbolicamente, o peso de outras duas datas de grande importância para os trabalhadores no Paraná. O 1º de maio, cuja mobilização foi adiantada pelas centrais sindicais e o 29 de abril. Nesta data, há dois anos, o governador Beto Richa (PSDB) promoveu um dos maiores ataques já vistos na história do Estado. Foram centenas de feridos que protestavam, justamente, pela manutenção da previdência dos servidores públicos.

“De dois anos para cá o que mudou é a forma da violência e a forma do ataque. Temos dito que o massacre continua todos os dias nas escolas públicas do Paraná. São professores perseguidos, trabalhando doentes e sem estrutura. Faltam funcionários, faltam professores e isso não deixa de ser uma violência. Há também a violência do Governo Federal, que após o golpe, vem atacando os direitos dos trabalhadores. O 29 de abril se repete, infelizmente, em atos violentos com pequenas bombas jogadas em cada local de trabalho todos os dias”, avaliou o secretário de comunicação da APP-Sindicato, Luiz Fernando Rodrigues.

Antes de sair em marcha, os trabalhadores instalaram uma placa simbólica na praça, rebatizando com o nome “Praça 29 de Abril”.

Catedral

O final da marcha foi realizado em frente à Catedral de Curitiba, na praça Tiradentes, com a participação de lideranças religiosas. O padre Alexander Cordeiro Lopes, representou a igreja, uma vez que o Arcebispo da cidade estava em Aparecida (SP), na assembleia geral da CNBB.

“A igreja não os acolhe aqui, diante do seu principal templo, porque assume posição partidária, porque é de esquerda, de direita ou de centro. A igreja não tem partido, acolhe a todos, independente de orientação política. Mas se é a mãe de todos, precisa ouvir a dor de todos e os pastores decidiram se manifestar conclamando as autoridades ao diálogo. A previdência não é uma concessão governamental ou privilégio. Os direitos sociais foram conquistas com intensa participação democrática e muita luta. Qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio”, finalizou o padre.

Edição: Ednubia Ghisi