Greve Geral

Movimentos por moradia inauguram Greve Geral com ocupação cultural em praça

Abandonado pela prefeitura, terreno na zona central de São Paulo abrigará atividades culturais

Brasil de Fato

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Ocupação em terreno no Anhangabaú, em São Paulo, reuniu 300 pessoas / Júlia Dolce

Na madrugada desta sexta-feira (28), a Frente de Luta por Moradia (FLM), em conjunto com a Central de Movimentos Populares e coletivos de cultura, deram início às ações da Greve Geral em São Paulo, com a ocupação cultural “Casa Aberta, Praça de Todos”. Cerca de 300 integrantes dos movimentos ocuparam um terreno no centro da capital paulista, como parte de uma iniciativa chamada Abril Vermelho, na Ladeira da Memória.

Os movimentos se organizaram por volta das 23h no Hotel Cambridge, prédio ocupado pela FLM que também se localiza na região central. A ocupação do hotel foi retratada recentemente no filme “Era o Hotel Cambridge”, lançado em março deste ano. Após chegarem no terreno ocupado, os integrantes dos movimentos armaram barracas e lonas no local. 

Carmen Silva, liderança da FLM, destaca o sentido da ação. “A importância de ocupar esse espaço é realmente dar uma razão social para ele. Ele já era uma praça e queremos fazer uma casa aberta com cultura para que as pessoas frequentem e compreendam que não podem viver com medo dentro de casa”.

Para Rafael Ferro, membro do Grupo Redemoinho de teatro que participou da organização da ocupação, a ideia do projeto é construir um local que exponha o pensamento cultural ideológico da FLM. “Que a gente inaugure um lugar referência dessa luta, de atividades e pensamento, não apenas da moradia em si, mas tudo que a luta abarca”.

Carmen Silva discursando na ocupação do Hotel Cambridge

Mayara Sioli, integrante da FLM há dois anos, afirma que a ocupação desta madrugada foi uma surpresa. “Achei interessante, é totalmente diferente do que acontece geralmente, quando a gente entra no prédio e tem correria. Aqui foi super tranquilo”. Mayara trabalha como porteira na ocupação do movimento localizada no Largo São Francisco, e conta que entrou na luta através da mãe, que participava há quase uma década. “Eu vi que ela lutou e resolvi entrar para tentar. Por mais que a gente já tenha um espaço nosso eles precisam da gente para continuar. Se acontecer algum despejo lutamos todos juntos, não deixam a gente na mão”.

 

Greve

Carmen Silva afirma que a intenção da FLM era ocupar o terreno antes da Greve Geral, marcada para esta sexta-feira (28). “Mas é importante emendar com a greve sim, mostrar que estamos gritando “Fora, Temer” e buscando nossos direitos. Todos tem que ir para a rua e os governantes tem que entender que somos 200 milhões e eles não podem decidir o destino dos trabalhadores que dão o sangue por esse país”, disse.

A liderança comentou também a coincidência histórica da construção da Greve Geral exatamente 100 anos após a realização da primeira grande paralisação da classe trabalhadora no Brasil. A Greve Geral de 1917, como ficou conhecida, foi organizada por operários que lutavam por direitos trabalhistas no país, e também teve relação direta com a moradia precarizada no centro de São Paulo, caracterizada na época pelos cortiços, e com as ondas migratórias dá década. 

“É engraçado como a história se repete. Eu gostaria que ela se repetisse para contar a história e não como um retrocesso. 100 anos atrás as pessoas fizeram greve por uma necessidade e agora 100 anos depois estamos aqui pela mesma necessidade. Então é triste vermos que em algumas coisas a gente não avançou”, criticou.

 

Era o Hotel Cambridge

O longa metragem “Era o Hotel Cambridge” (2017) dirigido pela cineasta Eliane Caffé, narra justamente as dificuldades de movimentos por moradia, com foco nos relatos de refugiados estrangeiros e migrantes que vivem na ocupação.

Presente na atividade desta sexta-feira, Eliane disse: “Uma coisa que me deixa emocionada entrando aqui é ver os estrangeiros juntos, organizados. Eu estava entrevistando alguns e há uma perfeita percepção do movimento, que geralmente é muito difícil de explicar para os estrangeiros. Eles estão muito integrados porque é a última perspectiva de saída para eles”, opina

O haitiano Feky Louis, por exemplo, participa de movimentos de moradia desde que chegou ao Brasil, há 3 anos, e estava presente na ação desta madrugada:  “Eu conheci o movimento através de outro colega haitiano, ele já viajou para outro país agora. Eu me sinto bem aqui”, relatou.

Segundo Carmen Silva, o filme, que já ganhou o prêmio “Cinema em Construção” no 63º Festival de San Sebastian, reuniu diversas classes sociais. “Ele demonstrou com a arte que nada mais somos do que lutadores e guerreiros pelos nossos direitos. Recomendo que assistam o nosso filme e conheçam nosso interior, de quem luta por direitos”.

Para a diretora do filme, a Greve Geral desta sexta-feira é um dos únicos instrumentos representativos dos movimentos por moradia. “Mesmo que a greve de amanhã não tenha o impacto esperado, ela é muito importante porque vai abrir uma sequência. Pode ser que ela seja a primeira de várias”, avaliou. 

 

Edição: Vivian Fernandes