Xenofobia

Palestinos presos após resistirem a ato de xenofobia são soltos em São Paulo

Familiares e amigos acompanharam a Audiência no Fórum Barra Funda em solidariedade aos 4 ativistas detidos

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Ativistas, familiares e amigos aguardavam a decisão da Audiência de Custódia no Fórum Criminal Barra Funda, em São Paulo / Júlia Dolce

A Justiça concedeu por volta das 16h desta quarta-feira (3) o habeas corpus aos ativistas e palestinos presos na noite de ontem em São Paulo, após serem agredidos em uma manifestação antimigração organizada por grupos de extrema direita na Avenida Paulista. Os acusados responderão em liberdade. Em apoio aos ativistas, dezenas de pessoas estão reunidas em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, onde foi realizada a Audiência de Custódia. 

A manifestação da direita criticava a nova Lei de Migração, que foi aprovada no Congresso no dia 18 de abril e atualiza o Estatuto do Estrangeiro (Lei da Ditadura Militar que criminaliza uma série de ações praticadas por imigrantes no país), garantindo mais direitos à imigrantes e refugiados. Os manifestantes foram filmados proferindo discurso de ódio e xenofobia contra os palestinos momentos antes do conflito.

Os palestinos Hasan Zarif, Nour El Deen Al Sayed, e os brasileiros Roberto Antonio Gomes de Freitas e Nikolas Ereno Silva, foram detidos pela Polícia Militar (PM) sob suposta acusação de explosão, lesão corporal, associação criminosa e resistência.

Zarif é dono do restaurante e centro cultural palestino Al Janiah, localizado no bairro do Bixiga, São Paulo, e líder do Movimento Palestina para Tod@s (MOPAT). Al sayed, que também trabalha no Al Janiah, sofreu uma fratura no nariz após agressões na manifestação. Vídeos divulgados nas redes sociais também mostram o acusado Antônio Gomes de Freitas, estudante de 18 anos, sendo agredido pelos manifestantes.

Os acusados foram levados para o 78º Distrito Policial na madrugada de ontem e não tiveram contato com familiares ou amigos desde então. Em entrevista para o Brasil de Fato, as mães de Roberto, Cleide Gomes e Fernanda Rodrigues, que aguardavam a decisão no Fórum Barra Funda, afirmaram que só querem levar o filho para casa.

"Não deixaram nem a gente levar roupa, porque nosso filho foi muito agredido e rasgaram a roupa dele. Não deixaram nada, colocaram policiais do Garra lá com fuzil. A gente saiu da delegacia depois das 4h da manhã e nem exame de corpo de delito tinha sido feito", disse Cleide.

"Engraçado que os direitistas estavam soltos enquanto eles estavam atrás das grades, postando selfie dentro da delegacia com o celular e fazendo 'lives'. Ele é a favor da lei de imigração, se o resto do povo não acha a lei legal, agredir não é a solução", afirmou Fernanda.

O refugiado congolês Christo Kamanda também está presente no Fórum em apoio aos palestinos. Kamanda faz parte de movimentos pelos direitos dos refugiados no Brasil. "Tenho o dever moral de manifestar essa solidariedade". Sobre a nova Lei Migratória, que ainda não entrou em vigor no país, ele afirmou: "É um absurdo em um país composto por filhos de imigrantes não existir uma lei de imigração, é muito triste. A Nova Lei de Migração poderá trazer mudanças, será um passo muito grande", disse.

A ativista síria Sara Ajlyakin, refugiada no Brasil há três anos, também acompanha o caso desde a madrugada desta quarta-feira. "O Al Janiah é um Centro Cultural maravilhoso para estrangeiros. Nós não estamos aqui apenas para fazer kibe e esfiha, estamos aqui para ter nosso direito de participar da política com dignidade. Não dá para andarmos na Avenida Paulista, ver um ato de fascistas cantando palavras de ódio contra nós e sentir que estamos aqui em paz. Criminalizar uma comunidade inteira é racismo e xenofobia", afirmou.

O advogado da defesa, Hugo Albuquerque, defende que não houve agressão por parte dos acusados. "No máximo houve um confronto entre as duas partes", afirmou. Os manifestantes do grupo Direita São Paulo, entretanto, acreditam que foram vítimas de um "ataque terrorista" por parte dos ativistas palestinos. Os acusados estão a caminho do Instituto Médico Legal (IML) para o exame de corpo de delito uma vez que pelo menos três deles possuem marcas de agressão. 

Edição: José Eduardo Bernardes