Agroecologia

Ana Primavesi: "Se não vivermos dentro da agricultura, vamos acabar"

Ana Primavesi participa de sessão de autógrafos na II Feira da Reforma Agrária

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Engenheira agrônoma e escritora Ana Maria Primavesi participa de sessão de autógrafos na II Feira Nacional da Reforma Agrária / Júlia Dolce

A engenheira agrônoma e escritora Ana Maria Primavesi, de 96 anos de idade, participa nesta tarde da II Feira Nacional da Reforma Agrária, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), em São Paulo. Primavesi passeou pela feira e deu uma sessão de autógrafos da nova coleção de suas obras lançadas pela editora Expressão Popular, no espaço da Tenda Literária.

A engenheira agrônoma é responsável por avanços no campo de estudo das ciências do solo, especialmente em relação ao manejo ecológico. Primavesi também é uma das principais pesquisadoras da agroecologia e da agricultura orgânica, e foi pioneira no movimento de compreensão do solo como um organismo vivo.

Para o público presente na sessão de autógrafos, Ana afirmou: "Sem a natureza não existimos mais, ela é a base da nossa vida". A escritora, que já havia participado da primeira edição da Feira da Reforma Agrária em 2015, assinou bandeiras do MST e levou uma muda com o logo do evento para casa.

"Lutar pela terra, lutar pelas plantas, lutar pela agricultura, porque se não vivermos dentro da agricultora, vamos acabar. Não tem vida que continue sem terra, sem agricultura", completou.

Carin Primavesi Silveira, filha de Ana, destacou em sua fala a resistência da mãe ao longo da história. "Ela é que nem um pingo de chuva sozinho. As pessoas falavam que ela era louca, que o que ela estava fazendo não teria aderência, que era bobagem porque estava indo contra a maré. Ela dizia que um dia esse pingo de chuva viraria um chuvisco, com mais gente aderindo ao movimento e enxergando que nós não podemos sobreviver sem um solo sadio".

A engenheira agrônoma nasceu e cresceu na Áustria, e adquiriu seus primeiros conhecimentos no tema com os pais agricultores. Ela viveu a Segunda Guerra Mundial e chegou a ser presa em um campo de concentração nazista. Primavesi veio para o Brasil e deu início à sua produção acadêmica e militância a partir dos anos de 1950, quando a chamada 'Revolução Verde' disseminava novas práticas agrícolas que possibilitaram o crescimento desenfreado do agronegócio nos Estados Unidos e na Europa.

Primavesi foi professora da Universidade Federal de Santa Maria, onde contribuiu para a organização do primeiro curso de pós-graduação em agricultura orgânica. Foi também fundadora da Associação da Agricultora Orgânica (AOO) e ao longo de sua carreira recebeu uma série de prêmios, como o One World Award, da Federação Internacional dos Movimentos da Agricultura Orgânica (IFOAM).

A engenheira agrônoma, Débora Vendramin Otta, que visitou a feira da reforma agrária, acompanhou a sessão de autógrafos emocionada. "A primeira vez que ouvi falar da doutora Ana foi na faculdade, em um grupo de cultura orgânica. Desde que estudei suas obras no mestrado eu fiquei encantada, sou apaixonada pelo tema e muito admiradora dela. Ela sempre foi batalhadora, sempre lutou pela agroecologia e nadou contra a corrente. Levava essa semente aonde quer que ela fosse. Se hoje já é difícil falar sobre o tema, eu imagino na década de 1950, quando ninguém falava sobre isso. Ela é muito especial", destacou.

As obras de Primavesi "A Convenção dos Ventos - Agroecologia em contos", "Manual do Solo Vivo", e "Manual Ecológico de Pragas e Doenças", fazem parte da coleção que está sendo lançada pela Expressão Popular. A biografia da agrônoma, "Ana Maria Primavesi - Histórias de Vida e Agroecologia", escrito pela também agrônoma Virgínia Mendonça Knabben, também está sendo vendido pelo selo.  

Edição: Luiz Felipe Albuquerque