Lava Jato

Dia histórico: Lula presta depoimento a Moro e fala para uma multidão em Curitiba

Capital paranaense foi palco de manifestações contra as reformas de Temer e as arbitrariedades da operação Lava Jato

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Organizadores calculam que 50 mil pessoas participaram do ato político na praça Santos Andrade / Joka Madruga

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prestou depoimento ao juiz federal de primeira instância Sérgio Moro na última quarta-feira (10) em Curitiba, na condição de réu na operação Lava Jato. O interrogatório, que começou às 14h20, terminou às 19h10 e foi seguido de um ato político na praça Santos Andrade, na região central da cidade. A participação de Lula naquela manifestação encerrou as atividades da Jornada pela Democracia, que reuniu trabalhadores de vários estados brasileiros contra as reformas do governo Michel Temer (PMDB) e contra os abusos da operação Lava Jato.

O depoimento

Durante quase cinco horas, Lula respondeu a uma série de perguntas do juiz Sérgio Moro sobre a suposta propriedade de um imóvel triplex no Guarujá, litoral paulista. O Ministério Público acusa o petista de ter recebido o apartamento em uma negociação de propina com a empreiteira OAS, que tinha contratos com a Petrobras.


Eu não solicitei, não recebi nenhum triplex


A Justiça Federal divulgou os vídeos na íntegra cerca de uma hora após o fim do depoimento. As imagens demonstram que Moro tentou, em vários momentos, “cercar” o petista com questionamentos sobre a relação dele com delatores e réus na Lava Jato – como se tentasse “produzir provas” contra o réu. Os advogados de Lula se recusaram a responder perguntas formuladas pela defesa de outros acusados, especialmente aqueles que assinaram acordos de delação premiada.

Sempre que falou sobre o apartamento triplex, o ex-presidente negou todas as acusações e ressaltou a falta de provas. “Eu não solicitei, não recebi, não paguei nenhum triplex. Não tenho”. Por outro lado, Lula admitiu que visitou o imóvel, porque a empreiteira pretendia vendê-lo para algum de seus familiares – o que não aconteceu.

Ponto alto

No interrogatório, o juiz Sérgio Moro questionou ainda se o petista sabia dos atos ilícitos cometidos por Paulo Roberto Costa, Renato Duque e Jorge Luiz Zelada, ex-diretores da Petrobras condenados no âmbito da Lava Jato. "Nem eu, nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal [sabíamos]”, respondeu o ex-presidente. “Nós só soubemos quando houve o grampo da conversa do Youssef com o Paulo Roberto".

Moro argumentou, então, que Lula indicou aqueles nomes ao conselho de administração da Petrobras, e por isso talvez estivesse informado sobre os desvios cometidos por eles. O petista rebateu: "Eu não tenho nada a ver com isso, eu não participei dessas indicações. (…) O senhor soltou o [doleiro Alberto] Youssef e depois mandou grampear. O senhor poderia saber mais do que eu", disse Lula, em uma crítica ao “mercado de delações premiadas” instaurado pela operação Lava Jato.

Próximos passos

O depoimento encerra a fase instrutória do processo, quando são produzidas as provas. Nos próximos meses, as partes devem apresentar as alegações finais e, em seguida, os autos do processo voltam às mãos de Sérgio Moro, que é o responsável pela sentença.

Não há prazo para a decisão do juiz federal, que pode absolver ou condenar os réus em primeira instância. Ou seja, mesmo após a sentença de Moro, cabe recurso.

Após o fim do depoimento, a defesa de Lula ofereceu uma coletiva de imprensa em um restaurante no bairro Santa Felicidade. O advogado Cristiano Zanin Martins criticou, em todas as respostas, a parcialidade do juiz Sérgio Moro. “Em nenhum lugar do mundo um magistrado, depois de praticar os atos praticados pelo juiz Moro, poderia ser reconhecido como legítimo em um julgamento realizado contra o ex-presidente Lula”, afirmou. O direito de ser julgado por um juiz imparcial está previsto no artigo 10 da Convenção Universal dos Direitos Humanos.

Solidariedade

Enquanto os advogados concediam entrevista coletiva a veículos de todo o mundo, o ex-presidente Lula preferiu sentir de perto o calor dos trabalhadores que vieram a Curitiba para apoiá-lo. No ato político de encerramento da Jornada pela Democracia, o petista falou para cerca de 50 mil pessoas – segundo os organizadores do evento – e reafirmou sua condição de pré-candidato à presidência da República em 2018.

“Nunca tive tanta vontade de mudar as coisas. Se a elite não consegue consertar o Brasil, o metalúrgico vai provar que pode”, declarou Lula. Dos 20 minutos de pronunciamento, quase a metade foi dedicada aos agradecimentos: “Nada é tão gratificante quanto saber que vocês confiam em alguém que está sendo massacrado. Sem vocês, eu não suportaria o que estão fazendo comigo”, concluiu sob aplausos.

Deputados, senadores e representantes de movimentos sociais participaram do ato político e reforçaram a solidariedade ao petista. A ex-presidenta Dilma Rousseff também participou do evento, e aproveitou para criticar as reformas do governo Temer: “Nem na ditadura militar ousaram retirar tantos direitos dos trabalhadores. Estão produzindo um retrocesso que vai nos condenar”, lamentou.

Recado dado

Ao embarcar no avião com destino a São Paulo no início da noite de quarta-feira (10), Lula deixou Curitiba com a sensação de dever cumprido. As mensagens e manifestações de ódio foram ofuscadas pelo apoio de trabalhadores e sindicalistas que reafirmaram a confiança no ex-presidente e se colocaram à disposição para defendê-lo de acusações sem provas.

 

Edição: Ednubia Ghisi