DIRETAS JÁ

Gravações contra Temer repercutem em Pernambuco, mas ministros continuam no governo

Movimentos pedem convocação de imediata de eleições, enquanto poucos deputados federais se posicionaram

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Sindicatos e movimentos populares realizaram assembleia e ato na tarde da quinta-feira (18), na Praça do Derby / Marcos Barbosa/Brasil de Fato

O vazamento das delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista, proprietários da empresa de alimentícios JBS, na noite da última quarta-feira (17) repercutiu em Pernambuco. Através da Frente Brasil Popular, movimentos populares e sindicais convocaram, na mesma noite, uma assembleia para a tarde dessa quinta-feira (18), na Praça do Derby. Em Brasília, deputados e senadores de Pernambuco falaram sobre o tema e nenhum dos quatro pernambucanos que ocupam ministérios de Temer rompeu com o governo.

Logo após tomar conhecimento das delações divulgadas, o presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT Pernambuco), Carlos Veras, declarou que a CUT “exige a saída imediata do golpista Michel Temer e a convocação de novas eleições através de participação popular, através de eleições diretas”. O sindicalista disse ainda que a população precisa “ocupar as ruas pressionando pelo 'Fora Temer' e por 'Diretas Já', pois este é o caminho para retomar a democracia”, avaliou.

A opinião é compartilhada por Jaime Amorim, membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Com o povo na rua vamos dizer 'chega desse governo golpista'. Queremos a saída de Temer e eleições diretas já, para que o povo brasileiro possa escolher seus rumos e definir o Brasil que a gente quer”, opinou Amorim. O sem terra disse ainda que o movimento não dará “mais nenhum minuto de folga ao governo golpista”.

A vereadora do Recife Marília Arraes (PT) disse que os acontecimentos revelam que a posição de seu partido estava certa. “É o que dizíamos lá atrás: o golpe não era contra a corrupção, não era contra Dilma e Lula ou contra o PT. O golpe é contra os brasileiros, beneficiando apenas os interesses da elite brasileira. Eles querem retirar os nossos direitos”, afirmou Arraes, que acredita que o papel da esquerda organizada agora é mobilizar o povo. “O que está em jogo agora é se o Congresso Nacional, que sabemos ser um show de horrores, vai eleger sozinho o presidente da República. Só 600 pessoas escolhendo, excluindo toda a população. Não podemos aceitar isso. Queremos eleger diretamente o presidente, como nos últimos 20 anos”, disse a vereadora.

Prefeito e governador defendem eleições indiretas

O prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB), e o governador de Pernambuco, Paulo Camara (PSB), se pronunciaram sobre o caso na noite dessa quinta (18). Em entrevista a uma rádio local, Geraldo Julio avaliou que a melhor escolha que Temer deveria ter feito seria renunciar, “de maneira que o Brasil poderia começar a reencontrar um caminho”, opinou o prefeito. Mas este caminho, na opinião de Geraldo Julio, não passa pelo voto do povo. "Temos que seguir a Constituição, que fala em eleições indiretas. O caminho para a população é o que estabelece a Constituição", opinou o prefeito do Recife.

Já o governador gravou um vídeo e divulgou nas redes sociais. Na peça, Camara afirma que “Temer precisa dar explicações” e, apesar de não falar o termo eleições, Camara deixa claro que segue a linha do seu correligionário, defendendo eleições indiretas, sem voto popular, ao dizer que o momento é seria de “necessário e absoluto respeito à Constituição”. Ambos foram apoiaram o golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff e colocou Michel Temer no Palácio da Alvorada.

O governador ainda aguardava a visita de Michel Temer nessa sexta-feira (19), que atividade que pode ser suspensa devido à divulgação das delações. O presidente não eleito viria ao estado assinar decreto que daria ao Porto de Suape autonomia para a realização de arrendamentos e concessões. Tal autonomia foi retirada em 2013 pela Lei dos Portos. Antes da lei, quando Suape ainda tinha autonomia, o porto foi presidido pelo hoje senador Fernando Bezerra Coelho (PSB) entre 2007 e 2010. O político é acusado pela Procuradoria Geral da República (PGR) de ter recebido R$ 41,5 milhões em propina desviados das obras da Refinaria Abreu e Lima durante o período em que presidiu Suape.

Pernambuco em Brasília

Em Brasília, o senador Humberto Costa (PT), líder da oposição a Temer no Senado, avalia que o país está vivendo "a maior crise institucional dos últimos 50 anos". "Neste cenário não pode haver meias medidas. A única saída é a convocação de eleições gerais para todos os cargos parlamentares e executivos do Brasil", opinou, acrescentando ainda que qualquer alternativa a isto pode agravar a situação. A deputada federal Luciana Santos (PCdoB) se pronunciou, por meio de nota, pedindo a convocação de eleições diretas e o um freio às reformas trabalhista e da Previdência propostas por Temer.

"O governo de Temer, oriundo de um golpe de Estado, não pode continuar. Nem ele e nem a sua pauta de destruição do futuro do povo e da nação. A única forma de recolocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento e de devolver a esperança ao nosso povo é realização de eleições diretas", opinou a deputada. A nota defende ainda que o gesto democrático de decidir através do voto deve estar acima de posições partidárias. "A palavra precisa ser dada à população para que ela, de forma livre e soberana, aponte os rumos que o Brasil deve tomar", afirma.

Entre os deputados federais pernambucanos que apoiaram o golpe e sustentaram Michel Temer está Bruno Araújo (PSDB), que apoiou o golpe e ganhou em troca o Ministério das Cidades para gerir. Até o fechamento desta edição, Araújo ensaiava entregar o cargo junto com os outros ministros tucanos. O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, além de amplamente citado nas delações da Lava Jato, está também envolvido nas negociações ilícitas que foram divulgadas nessa quarta. A Justiça afastou o mineiro de seu mandato, nessa quinta-feira. O tucano ainda teve dois parentes presos: sua irmã e seu primo. Maior aliado do governo golpista, o PSDB agora defende que o Brasil seja conduzido a eleições indiretas, em que apenas senadores e deputados votem para eleger um presidente.

Os ministros da Educação, Mendonça Filho (DEM); e da Defesa, Raul Jungmann (PPS), também não se pronunciaram sobre o tema e permanecem ocupando seus cargos junto a Temer. O deputado federal e ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), do mesmo partido do presidente ilegítimo, concedeu entrevista a uma rádio local e afirmou que "o ser humano erra" ao ser questionado sobre seu apoio irrestrito a Temer.

PSB pede saída de ministério

Em gradual afastamento da base de Temer, após ter apoiado o golpe, o PSB ainda não se pronunciou a favor da saída do presidente golpista. O presidente nacional da legenda, Carlos Siqueira, emitiu nota defendendo apenas que o deputado federal licenciado Fernando Bezerra Coelho Filho (PSB), que hoje ocupa o Ministério das Minas e Energia. Mas o pernambucano não está pensando em entregar o cargo e preferiu ignorar o recado do presidente nacional de seu partido. Segundo Fernando Filho, o PSB não tem relação alguma com sua nomeação para o ministério. Dentro do PSB fala-se que Fernando Filho foi indicação direta do seu pai, o senador Fernando Bezerra (PSB), investigado na Operação Lava Jato.

Edição: Monyse Ravena