Racismo

Sofrer racismo e intimidação por parte de seguranças "é corriqueiro", dizem jovens

Jovens de SP e do DF relatam casos em que foram acusados de roubos e humilhados; ato no dia 27 denunciará situação

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Marcha contra o genocídio da juventude negra na Avenida Paulista, em 2014 / Norma Odara | Brasil de Fato

Na última semana, pelo menos três jovens negros denunciaram, nas redes sociais, que foram vítimas de racismo cometido por integrantes da segurança privada de estabelecimentos comerciais. Acusados de roubo, os jovens foram revistados, humilhados e, em um dos casos, sofreu até mesmo agressões físicas e verbais.

A designer Ayala Dandara Xavier foi agredida em uma loja localizada no bairro de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, na última sexta-feira (12). O crime aconteceu a apenas uma quadra do local onde João Victor, adolescente de 13 anos, morreu após ser espancado por um segurança de uma filial do Habib's, em fevereiro. Mesmo assustada, ela conta que não se arrepende de ter denunciado.

"Eu fiz por saber que tenho uma voz um pouco mais forte do que a família do João Victor, fiz por ele, porque ele foi caracterizado como um moleque drogado e o cara que me bateu nitidamente achou que poderia fazer qualquer coisa comigo e nada aconteceria por ele", disse em entrevista ao Brasil de Fato.

Dandara conta que estava escolhendo um vaso para comprar na loja e começou a ser perseguida pela dona. "Ela questionou se eu tinha dinheiro para pagar, aí eu já fiquei brava, porque isso é uma coisa que a gente passa todos os dias em todos os lugares que entra. Mostrei meu dinheiro e apareceu o filho dela, que começou a me empurrar para fora da loja, me xingou de 'negra barraqueira'".

A jovem foi expulsa da loja e jogada em cima de sua bicicleta, quando um outro homem, que se dizia segurança da loja e policial, começou a agredi-la. Ela correu para outro estabelecimento e foi jogada novamente no chão. "O tempo todo estavam me agredindo e me acusando de roubar um vaso de R$ 6, sendo que eu tinha R$ 40 no bolso".

Dandara afirma que é corriqueiro ser vítima de racismo por seguranças privados, mesmo em estabelecimentos do bairro onde vive.

"É meio normal, infelizmente. Nós, negros, da periferia, o tempo todo somos ensinados pelos nossos pais a, assim que entrarmos em alguma loja, nunca colocar a mão nas coisas, sempre olhar o preço de longe. Pouco tempo atrás, na mesma avenida, um segurança de mercado achou que também podia me acusar de roubo. Eles nunca veem a gente como comprador, sempre como bandido, não importa se estamos bem ou mal vestidos".

Já o artista Hony Riquison conta que, no último final de semana, estava em uma festa beneficente da escola Vivendo e Aprendendo, em Brasília, quando foi abordado por seguranças que investigavam supostos roubos no evento. Eles me abordaram sem situar o que tava acontecendo, me jogaram na parede, começaram a me revistar. Pegaram meu celular e me fizeram colocar a senha para provar que não era roubado. Então o segurança falou 'desculpa senhor, é que o senhor tem as características do bandido, por isso que a gente abordou o senhor'. Nesse momento só reforçou que me pararam porque eu era negro", relatou.

Segundo Hony, a escola em que ocorreu o caso é conhecida por pregar os direitos humanos e trabalhar com métodos alternativos de educação. "É preocupante, porque mesmo que a escola tenha toda essa visão alternativa que se propõe a discutir temas ligados à violência, se propõe a fazer uma mudança, os seguranças contratados agem dessa forma, discriminando o público. O caso da Dandara e o meu só demonstram o quanto a diferença racial no Brasil ainda é visível", afirmou.

Um outro caso, denunciado pelo jovem Matheus* no último sábado (13), ocorreu no Shopping Morumbi, em São Paulo. Ele conta que foi perseguido e agredido por seguranças do shopping enquanto passeava com amigos. "Vocês se incomodam com o meu cabelo black? Acham que não somos capazes de estar pelos corredores de shoppings elitistas?", questionou no relato.

Fiscalização

Na opinião do pesquisador André Zanetic, membro do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), o despreparo e a falta de fiscalização da segurança privada são alguns dos motivos da violência cometida pela categoria que, na sua opinião, pode ser comparada com a truculência policial.

"Há um paralelo na forma como a polícia e a segurança privada fazem uso da violência, o que segue um paradigma brasileiro. Não são respeitados padrões racionais de escala de força, a atuação não é igualitária e o racismo e a questão de classe não são superados. Mesmo com a ampliação do curso obrigatório da Polícia Federal para os seguranças privados, de 120 para 160 horas, os resultados são muito aquém do esperado, assim como a fiscalização", afirmou.

De acordo com Zanetic, que estudou a questão em seu doutorado, há em torno de 800 mil vigilantes privados no Brasil, o que supera em 200 mil o número de policiais no país. O número, no entanto, não contabiliza os seguranças irregulares e clandestinos, que, na opinião do pesquisador, podem dobrar a discrepância entre policiais e vigilantes. Zanetic afirma ainda que existem muitos policiais que atuam ilegalmente na segurança privada.

"Tem um número grande de policiais que trabalham como segundo emprego, irregular, na segurança privada. Tem também os profissionais que trabalham de forma clandestina, porque a própria empresa de segurança é irregular. Hoje há um mercado muito grande", esclarece.

Impunidade

Uma manifestação foi marcada para o próximo sábado (27) com o objetivo de denunciar o caso de Dandara e relembrar casos de assassinatos de mulheres negras no país. Chamado de "Ato anti racista por Dandara, por Luana, por Claudia e por todxs nós",  o evento acontecerá em frente ao Centro Cultural da Juventude, localizado na zona norte de São Paulo.

Segundo Raquel Almeida, artista e ativista do movimento negro que está organizando a manifestação, o ato pretende quebrar o ciclo de impunidade por trás da absolvição dos policiais militares. O nome do evento faz referência aos assassinatos de Luana Barbosa dos Reis, mulher negra e lésbica, que há um ano foi espancada até a morte por policiais, e de Claudia Silva Ferreira, também assassinada pela Polícia Militar (PM), depois de ser arrastada por 300 metros em uma viatura, há três anos.

"Pensando nesses casos e tantos outros que não têm continuidade, a gente faz o movimento, vai para as ruas, protesta, vive sob ameaças, mas a justiça que a gente busca não acontece. O racismo funciona de uma forma costurada para que a gente fique cada vez mais em silêncio. A gente está lidando com um poder público que silencia a gente na bala, no cacetete, no chute", denunciou.

Segundo Raquel, Dandara poderia fazer parte da estatística alarmante no aumento de 54,2% dos assassinatos de mulheres negras na última década, segundo o estudo Mapa da Violência 2015: Homicídios de Mulheres no Brasil.

"Como ela conseguiu se sair dessa, a importância de manter esse ato é para que essa luta seja levada para frente. O que está por trás na verdade é o que está na frente, o racismo velado. O panorama geral que a gente vive é esse, um racismo que não nos encoraja a lutar e falar alguma coisa, porque a polícia tem respaldo do Estado para agredir e aval de matar um possível suspeito", disse.

Na opinião do pesquisador André Zanetic, a aprovação de um novo Marco Regulatório da Segurança Privada poderia minimizar o abuso de violência e discriminação racial no caso dos vigilantes. Conhecido como Estatuto da Segurança Privada, o Projeto de Lei 4238/12 foi aprovado pela Câmara dos Deputados em novembro de 2016, e segue em trâmite no Senado.

"Aumentaria um pouco o nível de escolaridade necessária para os vigilantes e mexe na questão da fiscalização. Hoje você não tem controle na contratação de funcionários ou testes psicológicos para saber se são capazes de cumprir a função. Na segurança de bancos, principalmente, os casos de racismo são alarmantes. Em muitas ocasiões as violências são absolutamente abusivas", opinou.

Por enquanto, Dandara, Hony e Matheus acompanham a situação dos boletins de ocorrência que registraram e apostam nas denúncias online. "Se você não gritar, ninguém vai saber que está doendo", afirmou Dandara. "A gente precisa cada vez mais escrachar esses casos, divulgar ao máximo para que possamos avançar na discussão racial no Brasil", concluiu Hony.

*A identidade do jovem, menor de idade, foi preservada

Edição: Vanessa Martina Silva