INJUSTIÇA

Um ano e meio depois, moradores de Barra Longa ainda convivem com a lama da Samarco

Dezoito meses após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, o rejeito ainda não foi retirado e causa indignação

Brasil de Fato | Barra Longa (MG)

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A Prefeitura Municipal permitiu, à época, que a Samarco utilizasse o Parque de Exposições como local de depósito temporário de lama / Antonio Cruz / Agência Brasil

Dona Geralda de Paula Gonçalves olha, com tristeza e indignação, para a montanha de rejeito seco depositado há mais de um ano e meio nos fundos de sua casa. O que antes era o Parque de Exposições da cidade de Barra Longa – após o rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco – hoje é um canteiro de obras. 

“Eu fui prejudicada por essa lama aqui, mas não foi totalmente pela que veio de Mariana. A tragédia aqui foi eles [Samarco] é quem fizeram. Eles é quem trouxeram essa lama do centro da cidade e puseram aqui”, conta a idosa de 66 anos.

Na madrugada do dia 6 de novembro de 2015, o mar de lama que saiu de Bento Rodrigues, no município de Mariana, invadiu o centro urbano de Barra Longa. Atingiu cerca de 180 quintais, destruiu ou causou danos graves em mais de 100 casas e acabou com espaços coletivos, como igrejas, praças, escolas e campos de futebol. 

Na praça Manoel Lino Mol, em Barra Longa, a lama chegou a 8 metros de altura. E para retirar essa imensa quantidade de lixo da mineração, a Samarco começou uma operação que acabou espalhando a lama ainda líquida por ruas não atingidas.

A Prefeitura Municipal da cidade permitiu, à época, que a Samarco utilizasse o Parque de Exposições como local de depósito temporário de lama, até que fosse encontrada uma solução definitiva. “Diante de tudo o que vivemos aqui até hoje, e vendo esta montanha de rejeito diante de nós, não é difícil reafirmar o slogan que eu criei: ‘é a Samarco levando a lama aonde a tragédia não chegou”’, ironiza Serginho Papagaio, morador da cidade e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). 

Descaso com a saúde dos atingidos

Dona Geralda vive uma situação de risco grave. Ela tem esclerodermia sistêmica, uma doença do tecido conjuntivo que envolve alterações na pele, nos vasos sanguíneos, nos músculos e nos órgãos internos e que pode gerar outros problemas, sobretudo, respiratórios. Viver exposta a poeira do rejeito já levou Dona Geralda ao hospital com falta de ar, necessitando, inclusive, de balão de oxigênio. “Foi depois da lama que eu piorei. Nunca tinha ficado com falta de ar”, denuncia.

Edição: Joana Tavares