Entrevista

Lindbergh: "Não podemos ter uma nova política de conciliação de classes com o PMDB"

O senador petista também comentou a possível candidatura de Lula a Presidência da República

Brasil de Fato | Recife (PE)

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"O PT tem que entender que estamos vivendo um novo ciclo" / Vinícius Sobreira/ Brasil de Fato PE

Em passagem pelo Recife, para participar do Congresso Estadual do Partido dos Trabalhadores, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que também é candidato a presidente nacional da legenda, conversou com a reportagem do Brasil de Fato Pernambuco sobre a crise política desencadeada após a delação de Joesley Batista, do grupo JBS e da possibilidade de eleições diretas.

Confira a íntegra:

Brasil de Fato: Qual o interesse da grande mídia na ampla divulgação dos áudios e denúncias envolvendo Temer e Aécio?

Lindbergh Farias: Primeiro, a gente tem que diferenciar as denúncias. No caso de [Michel] Temer (PMDB) e de Aécio [Neves (PSDB-MG)], tem gravações, provas. Está tendo essa disputa de narrativa nas redes sociais. Por isso, eu acho importante dizer que o caso do Temer é de gravação de conversas. O assessor dele foi acompanhado pela Polícia Federal com uma uma mala de dinheiro. O mesmo ocorreu com Aécio.

Qual o papel dos partido políticos e movimentos populares nessa conjuntura?

O PT tem que entender que estamos vivendo um novo ciclo, que exige um outro programa –e não é um programa de conciliação. Tem que ter outra estratégia, que passe pela mobilização, por disputa da consciência política. Não podemos ter uma nova política de conciliação de classes com o PMDB, com os partidos que apoiaram o golpe.

Nós vamos lutar para eleger Lula (PT), mas dessa vez é para democratizar os meios de comunicação, para mexer no sistema tributário, pra dar passos a frente num programa de reformas de base para o nosso país. Então, eu acho que a gente tem que entender a situação atual não tem nada a ver com 2003, que era um cenário de relativa paz social. Nós estamos no meio de uma grande guerra de classes.

Os vazamentos da Lava Jato e de algumas outras operações policiais tem sido bem seletivos, como o senhor vê esse "vazamento" em em que executivos da JBS também citam Lula em sua delação?

O que acontece é um processo seletivo que tem uma finalidade muito clara de partir para segunda etapa do golpe. O que é que seria segunda etapa do golpe? Tentar impedir a candidatura do Lula de todo jeito. Estão trabalhando nesse sentido… é claro que as coisas saem do controle. Essa última delação da JBS que pega o Temer e o Aécio, claramente não é uma delação só. Ela vem seguida de uma operação da Polícia Federal que gravou a participação do presidente e do Aécio em cena de crime. É diferente daquelas que falam “eu ouvir dizer”, então tem provas materiais.

O jornal O Globo já soltou um editorial defendendo a renúncia de Temer. Eles perceberam que Temer está muito fraco, sem condições de levar essas reformas a frente, e estão querendo dar um golpe dentro do golpe, na minha avaliação.

O que seria um golpe dentro do golpe? É partir para uma eleição indireta ou até mesmo consolidar o nome da presidente do Supremo Tribunal Federal [STF], Cármen Lúcia, na Presidência da República, porque ela é a terceira da linha sucessória. O primeiro é o Rodrigo Maia [DEM-RJ], o segundo é o Eunício Oliveira [PMDB-CE].

Segundo a minha avaliação, a Globo vai tentar transformar Cármen Lúcia em presidenta da República ou alguma outra saída conservadora, que seria via eleição indireta desse momento, para retomar as reformas, porque Temer está muito fraco.

A verdade é essa: Temer está fraco e eles estão querendo se antecipar a uma coisa que começa a acontecer: mobilizações populares pelas eleições diretas.

Estou falando tudo isso porque eles estão com um problema nas mãos. Eles sabem que vai ser difícil barrar esse movimento das diretas. E como um candidato deles poderia disputar a eleição dizendo que iria reduzir o horário de almoço de uma hora pra trinta minutos? Que iria aumentar idade de aposentadoria pra 65 anos? Por isso, acho que agora eles estão nessa fase dar um golpe dentro do golpe.

Qual sua opinião sobre as diretas? Quem seriam os possíveis candidato?

O PSDB está numa crise muito grande. Talvez eles escolham João Dória [atual prefeito de São Paulo], que está badalado como candidato das elites do país. Pode ter a candidatura do Bolsonaro (PSC) e tem a candidatura do nosso campo que é a candidatura do Lula, que está crescendo muito porque a vida do povo está piorando, as pessoas estão perdendo dinheiro.

As pessoas reconhecem que, naquele período de governo Lula, houve um processo de inclusão social, de melhora da vida do povo, dos mais pobres. Então, acho que eles vão, de todo jeito, tentar inviabilizar o processo eleitoral, porque eles têm medo de quem Lula seja eleito.

Eles sabem que um governo nosso agora vai ser um governo diferente, vai ter que dar passos a frente, ou seja, entrar a pauta da democratização da comunicação, do monopólio da Rede Globo, da tributação das grandes fortunas.

Acho que o ataque ao Lula tem muito disso, do que seria um novo governo do Lula pós golpe. Se antecipar a eleição indireta agora, eles não têm como tirar o Lula, porque eles têm que condená-lo em primeira e em segunda instância [para impedi-lo]. Então, eles não vão tirar.

Agora eles estão muito desmoralizados no Congresso Nacional. Não é fácil para o povo engolir essa história de eleições indiretas, eles sabem disso. Estamos em um impasse.

*Colaborou Vanessa Gonzaga

Edição: Monyse Ravena