Crônica

Crônica: Ferreirinha

Para ler numa manhã de sábado; ou ao som de Frank Sinatra cantando “My way”

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Roberto Efrem Filho - ou Beto, como gosta - é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavra. / Arquivo pessoal

“Ferreirinha morreu de aids”. Como senhorinha que mantém vasinhos de porcelana na cristaleira de uma sala apinhada de faltas, colecionei na memória aquelas palavras ditas por minha mãe. Eu não passava dos dez anos de idade. Nada sabia da aids. Achava-me há uma década de ouvir falar em Caio Fernando Abreu, de estudar na Faculdade de Direito e de transitar pelas ruas do centro do Recife que, num desses desavisos, acabariam me reconduzindo à esquina da Rua das Ninfas com a Manuel Borba. Sim, exatamente à calçada diante da boate em que eu beijaria um homem pela primeira vez; à mesma calçada perante o edifício onde Ferreirinha morava e, numa manhã de sábado de dezembro de 1992, minha mãe, meu irmão e eu nos vimos cercados pelas fitas métricas do costureiro. Ferreirinha pesava muitos, muitos quilos. E poderia ser o homem mais gordo com que meus olhos de menino já haviam se fascinado. Movia-se entre agulhas, tecidos e linhas como se calçasse sapatilhas rosadas. Anotava as medidas de meu irmão para a gravatinha borboleta, a bermudinha à altura dos joelhos e a camisa de mangas compridas, todas de irretocável linho branco, que ele usaria em sua formatura do ABC. Ferreirinha conversava com minha mãe sobre novas encomendas de roupas, sobre as colegas dela do Banco que também eram clientes dele, sobre assuntos que meus ouvidos mal captavam porque minha atenção surpreendida oscilava das mãos do costureiro para os quadros de pinturas a óleo que se sucediam infinitamente, uns ao lado dos outros, uns acima e abaixo dos outros, na parede da saleta em que Ferreirinha nos recebia. Mais. Meus olhos percorriam o rapaz bonito que, vestindo um avental, parecia lavar pratos ou preparar o almoço na pequena cozinha. Era “o amigo de Ferreirinha”. Mais tarde, eu compreenderia, seu “namorado”, seu “companheiro”. “Ferreirinha morreu de aids” pouco tempo após o diagnóstico. Quando seu estado de saúde se tornou público e a doença avançou sobre o corpanzil do homem como um exército de traças avança sobre um vestido de noiva deixado num fundo de armário, o costureiro perdeu clientes e trabalhos. Minha mãe foi uma das poucas que restou. Encomendou-lhe saias enquanto Ferreirinha pôde costurar. Depois da morte, o rapaz bonito de avental terminou expulso do apartamento de Ferreirinha. A família que rejeitara o costureiro durante anos adentrou o edifício, vendeu o imóvel, as telas e cada delicadeza, desfez-se dos tecidos e se assenhorou de todos os bens. Não demorou, “na miséria, meu filho, na miséria”, o rapaz bonito também morreu de aids. Não há dia em que eu, que escrevo linhas com menos destreza do que Ferreirinha as manejava, atravesse aquela esquina sem me lembrar do fim do costureiro. Na imagem que guardo, ele cantava.

Edição: Monyse Ravena