Curitiba

Em Curitiba, pessoas em situação de rua geram renda através da economia solidária

Experiências foram trazidas em Seminário, realizado em Curitiba no último dia 30

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Integrantes de padaria comunitária mostram como é possível gerar renda através da Economia Solidária / Franciele Petry Schramm

Ao lado da mesa de pães e tortas, José* mostra com orgulho seu trabalho. Ele é uma das quatro pessoas que estão ou estiveram em situação de rua que hoje atuam na Rede Paranaense de Padarias Comunitárias Fermento na Massa, em Curitiba. Toda quarta-feira, saí do Condomínio Social – lugar onde está acolhido atualmente – e segue rumo ao bairro Vila Fanny, no Sul de cidade, para contribuir nos trabalhos da Padaria Comunitária ‘O pão nosso’. A história do rapaz só comprova que é possível que pessoas em situação de rua gerem renda através da economia solidária.

O trabalho de José foi uma das experiências trazidas no‘II Seminário População em Situação de Rua: caminhos e perspectivas na Economia Solidária’, realizado nesta terça-feira (30), em Curitiba.

A atividade, promovida pelo Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), pela incubadora de economia Solidária Tecsol e pelo Movimento Nacional da População em Situação de Rua, foi realizada na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Educadores sociais e populares, servidores públicos de diversas áreas, assistentes sociais e pessoas em situação de rua participaram do evento, que trouxe as experiências do projeto ‘Gerando renda e criando dignidade com a população em situação de rua de Curitiba’ (conhecido como Coopera Rua), executado pelo Cefuria ao longos dos últimos dois anos.

Para o educador popular Luis Pequeno, que coordenou as atividades do Coopera Rua nesse período, o evento superou as expectativas. “Foi muito além de uma prestação de contas do projeto. Fomentou debates sobre as políticas públicas que a população em situação de rua merece, e os encaminhamentos possíveis para romper as mazelas e todas as dificuldades que essa população tem”, avalia.

Geração de renda

José se aproximou da Padaria Comunitária ‘O pão nosso’ após ter participado de oficinas técnicas de panificação e confeitaria básica, ofertadas no Coopera Rua. As atividades foram realizadas no mesmo local onde hoje o rapaz trabalha. Ele diz estar contente de atuar no local. “Aqui todo mundo se ajuda. Não tem um patrão mandando, e a gente se diverte e faz tudo com muito amor pra comunidade”.

O projeto desenvolveu atividades como rodas de conversa e oficinas de técnicas básicas que buscaram inserir pessoas em situação de rua na economia solidária. Além disso, cursos de formação também foram realizados para aproximar esse grupo de apoiadores e servidores públicos que atuam com essa população, para fomentar o desenvolvimento de outras ações em equipamentos públicos.

A professora da UTFPR Marilene Zalula, uma das coordenadoras da Tecsol – que foi parceira do Cefuria no desenvolvimento do Coopera Rua – avalia que a prática de alguns valores da economia solidária já pode ser encontrada entre as pessoas em situação de rua, como a cooperação. “Apesar de aparentemente estarem em um processo individual, de cada um por si, essas pessoas sempre se apoiam e se ajudam de maneira espontânea, nas situações de ameaça”, explica.

Integrante do MNPR, Mauricio Pereira reforça a ideia. “As pessoas em situação de rua são muito solidárias. Elas trocam e dividem as coisas – como a comida, a manta, a proteção. A gente está vendo que a Economia Solidária traz coisas que a gente já praticava e nem sabia que era”, fala.

Desafios

As pessoas em situação de rua também apontaram para a importância do desenvolvimento de projetos voltados para a geração de renda, mas apontam que é preciso avançar no desenvolvimento de outras políticas públicas para que seja possível dar condições para que as pessoas superem essas circunstâncias.

Saúde, moradia e educação foram algumas das políticas apontadas como necessárias pelos participantes. Coordenador municipal do MNPR, Carlos Umberto dos Santos, reflete que as ações devem ser pensadas em conjunto, já que uma possibilita o desenvolvimento de outra. “Para trabalhar, a gente precisa também voltar a estudar. Precisa saber lidar com as novas tecnologias”, fala.

O militante também lembra que, se as políticas públicas existentes fossem efetivadas, muitas pessoas não estariam nessas condições. E fala que é preciso avançar sobre aquilo que já existe. “Hoje nós não queremos mais albergues. Nós queremos habitação. Como vamos trabalhar se não temos para onde voltar no fim do dia?”.

*Nome fictício, para preservar a identidade do participante

Edição: Brasil de Fato