Agrotóxicos

Na Alemanha, em meio ao processo de fusão com Monsanto, Bayer enfrenta manifestações

Com criatividade, ativistas apresentam denúncias de impactos das políticas de transgênicos e de controle de sementes

Fundação Rosa Luxemburgo

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Ambientalistas, pequenos agricultores e integrantes de movimentos sociais protestaram contra uso intensivo de agrotóxicos / Daniel Santini e Gerhard Dilger

A última reunião de acionistas da empresa alemã Bayer, realizada em Bonn, em 28 de abril de 2017, foi marcada por protestos e denúncias, incluindo críticas em relação à aquisição da empresa estadunidense Monsanto. Do lado de fora do Centro de Conferências Mundial de Bonn, onde foi realizado o encontro, ambientalistas, pequenos agricultores e integrantes de movimentos sociais procuraram chamar a atenção para os impactos da consolidação de um modelo de negócios baseado no uso intensivo de agrotóxicos e na privatização da vida, com criação e patenteamento de novas variedades transgênicas e cobrança de copyrights por uso de sementes.

Em uma manifestação descontraída e bem-humorada, repleta de gente com roupas e cartazes coloridos, agricultores da região oeste da Alemanha apresentaram uma máquina velha, meio enferrujada, que, entre lufadas de vapor e fumaça, esquentava batatas orgânicas, servidas para os demais presentes. A engenhoca fez sucesso não só por aquecer o entorno em um dia frio, mas também por ter seu fogo alimentado com placas simbolizando patentes de tomates, brócolis, laranjas, bananas e outras variedades, além de documentos representando a fusão entre as duas empresas.

A farmacêutica e agroquímica Bayer, ao anunciar o pagamento de 128 dólares por ação em uma transação de US$ 66 bilhões, assumiu o controle da Monsanto, a maior produtora de sementes industriais do planeta. A negociação agrava a concentração no mercado mundial de agroquímicos e de sementes e faz frente a outra fusão ocorrida anteriormente, a da estatal chinesa ChemChina com a suíça Syngenta, especializada na venda de venenos para agronegócio. A primeira adquiriu a segunda em um negócio estimado em US$ 43 bilhões. Para comparação, o Produto Interno Bruto (PIB) do Paraguai foi de cerca de US$ 27 bilhões em 2015, ano do último levantamento divulgado pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe da Organização das Nações Unidas. O PIB é uma estimativa da soma de todos os bens e serviços produzidos por um país durante determinado período; trata-se de uma unidade de medida grosseira e simplificadora que não representa a real riqueza de um país, mas pode servir como referência para compreensão da dimensão das negociações na nova ordem mundial que se desenha.

Impactos da Monsanto no Paraguai

Como parte das atividades organizadas para debater a fusão entre as duas empresas, foi realizado um encontro na Universidade de Colônia, cidade vizinha à Bonn. Entre os participantes internacionais, esteve o engenheiro agrônomo Miguel Lovera, ex-presidente do Serviço Nacional de Qualidade e Sanidade Vegetal e de Sementes (SENAVE) do Paraguai. Lovera, que viajou a convite da Fundação Rosa Luxemburgo, foi o responsável durante o governo do presidente Fernando Lugo por regular a atuação das multinacionais do setor agroquímico em seu país. Ele apresentou denúncias sobre os impactos do que chamou “Modelo Monsanto” e defendeu que a Bayer, ao adquirir a empresa, também assume um passivo considerável relacionados aos danos sociais e ambientais provocados. Ele lista contaminação de rios e lençóis freáticos, desmatamento, concentração fundiária e produção de alimentos tóxicos como resultados diretos e indiretos da proliferação de monocultivo, transgênicos e venenos no seu país.

A Bayer reclama que as denúncias sobre impactos de agroquímicos são inconsequentes e organizou uma campanha pedindo “fatos em vez de preconceitos” (em alemão, Fakten statt Vorurteile). Em frente à assembleia de acionistas, a empresa chegou a pendurar uma faixa a respeito e escalou para uma aparição rápida um funcionário fantasiado de ursinho com uma camiseta com a mensagem. A estratégia de marketing destoou do ambiente corporativo do encontro; a maioria dos acionistas trajava terno e gravata e exibia um semblante carregado, sisudo, contrastando na entrada com os manifestantes coloridos, alguns fantasiados de milhos e batatas orgânicas gigantes, outros vestidos de apicultores e seus cartazes chamando atenção para os pesticidas assassinos de abelhas da empresa.

“Os fatos são muito concretos e os impactos, reais. A Monsanto agiu sem escrúpulos e, pressionando pela desregulamentação total, contribuiu para fragilizar o Estado de Direito não só no Paraguai, mas em todos os países da região”, defende Lovera, que lembra que a empresa passou a falar em “República Unida da Soja” para se referir às áreas de plantio com suas sementes localizadas na Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, ignorando fronteiras e governos locais. Ele destaca que o modelo baseado em sementes geneticamente modificadas e uso intensivo de agrotóxicos agravou a concentração fundiária, favorecendo o avanço de monocultivos para exportação em áreas antes destinadas à produção de alimentos.

Lovera relaciona a reconfiguração do campo e a substituição da agricultura familiar por latifúndios com cultivos mecanizados praticamente sem trabalhadores às levas migratórias e lembra que mesmo as pequenas propriedades remanescentes sofrem com os efeitos da aplicação pesada de Roundup, herbicida à base de glifosato que em seu país é chamado de mata-tudo, tal o seu potencial destrutivo. O resultado é uma crise que afeta até mesmo a segurança alimentar de seu país, aponta Lovera. “Nem mesmo na Guerra do Chaco o Paraguai precisou importar alimentos e isso é o que está acontecendo agora”.

Ele falou inclusive de tentativas de interferência da empresa quando esteve à frente do principal órgão de fiscalização fitosanitária e de sementes de seu país, e defendeu que a Bayer, ao insistir em manter o negócio, deveria se preocupar em compensar todos os impactos causados e desativar as agrotecnologias em uso atuais. Ele escreveu um artigo sobre os impactos da Monsanto no Paraguai (disponível em alemão) e, por trazer elementos concretos e fatos detalhados, foi convidado, durante sua passagem pela Alemanha, a fazer uma apresentação para parlamentares em audiência no Bundestag, o Parlamento Federal, e a conceder entrevistas para alguns dos principais jornais, rádios e TVs locais. Para a Deutsche Welle, a emissora pública alemã para audiência internacional, concedeu entrevistas em espanhol e inglês.

Dentro da assembleia de acionistas

As denúncias de impactos dos produtos e políticas da Bayer e Monsanto não ocorreram somente no espaço externo da assembleia. Para tentar proteger e isolar seus acionistas do contato com a temível “máquina de destruir patentes”, com os cartazes coloridos e as fantasias criativas, a empresa chegou a acionar a Justiça defendendo que o protesto não deveria ser autorizado na área próxima ao encontro. Não obteve sucesso, o protesto foi realizado e, mesmo dentro da reunião, aconteceram manifestações e questionamentos.

Na assembleia, cada acionista tem direito de fazer perguntas à mesa diretora e há espaço para críticas. Entre dúvidas corporativas e questões sobre políticas internas, Werner Baumann, o atual presidente da Bayer, teve que ouvir de tempos em tempos, confrontações diretas, incluindo a de como, frente a tudo que estava sendo denunciado, conseguia dormir. “Com pílulas da Bayer, claro”, defendeu um dos acionistas, logo após falar em detalhes sobre a morte de abelhas.

Entre os questionamentos sobre impactos diretos de Bayer e Monsanto na América Latina estão os de Verena Glass, coordenadora da Fundação Rosa Luxemburgo, que apresentou dados da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, e Christian Russau, da Associação Acionistas Críticos, que questionou o uso no Brasil de agrotóxicos proibidos na Europa, e exibiu uma camisa e fez referências à articulação paraguaia Ñamoseke Monsanto (em Guarani, “fora Monsanto”;  acesse os discursos dos dois na íntegra em alemão). Às duas perguntas, a diretoria deu respostas evasivas e minimizou a situação.

Além dos questionamentos no microfone, houve manifestações fora do protocolo também. Nem o esquema de segurança similar ao de aeroportos para controlar o acesso, nem os seguranças com intercomunicadores e olhar atento a qualquer movimentação fora do padrão, impediram que algumas pessoas se arriscassem a exibir mensagens e chamar a atenção. Acabaram expulsas do espaço.

Não é só pelos impactos no Paraguai e nos países vizinhos que a Bayer pode ter dores de cabeça em função da aquisição da Monsanto. Dez dias antes da assembleia de acionistas, em 18 de abril, foi anunciado o veredito do Tribunal Internacional da Monsanto, iniciativa internacional da sociedade civil com o objetivo declarado de “responsabilizar a empresa por violações dos direitos humanos, por crimes contra a humanidade e por ecocídio”

Edição: Fundação Rosa Luxemburgo