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Rafael Greca deve desculpas à dona Enoemim

Para ela, o despejo - somente da sua casa - foi motivado por perseguição política do prefeito no mandato anterior

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Enoemim posa em frente à casa em que mora hoje, mas não se esquece do antigo lar / Carolina Goetten

Dona Enoemim Eloy de Andrade vive na Cidade Industrial de Curitiba, com um filho, um neto, um cachorro e uma calopsita. Leva uma rotina de simplicidade em uma casa adquirida junto à Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), mas a vida nem sempre foi tão tranquila: ela acusa o prefeito de Curitiba, Rafael Greca, de ter forçado seu despejo na casa onde viveu por mais de 30 anos, por motivações políticas.

Em 1996, Greca procurou por dona Enoemim com intenção de utilizar o muro de sua antiga casa, em uma esquina movimentada da Vila Formosa, como suporte para um anúncio de campanha eleitoral. Por discordar da linha política do ex e atual prefeito, Enoemim recusou o pedido; mas as consequências de mexer com os poderosos chegam logo. Por implicância, na palavra que ela escolheu para definir a postura de Greca, ele articulou para que fosse emitida uma ordem de despejo que, 16 anos depois, foi cumprida. Dona Enoemim precisaria deixar a casa.

Despejo de uma casa só

Enoemim e a família vieram do norte do Paraná quando a “geada negra”, como ficou conhecida, castigou o solo da região e destruiu as plantações de café. Junto a eles, outras centenas de pessoas foram forçadas a se deslocar em busca de melhores condições de vida na capital. Nessa época, em Curitiba, os migrantes começaram a se organizar com o apoio de sindicatos e movimentos sociais para ocupar territórios abandonados, que poderiam servir de moradia aos novos habitantes.

 “Quando ele veio ainda estávamos dormindo, era cedo. Levantei para abrir a porta e vi que estava fervendo de polícia. Parecia que eu era uma criminosa. Nisso, já foram entrando e cortando a mangueira do fogão, destruindo todas as coisas. Acabaram com tudo, fiquei sem cama, sem nada pra dormir, na rua. Nenhum dos meus vizinhos foi despejado, só eu”, lembra Enoemim, que enfrentou diversas dificuldades até se arranjar de novo. O filho que morava com ela chegou a viver na rua por mais de um ano e teve problemas com o alcoolismo.

“Eu não queria ter saído de lá: por perto, tinha farmácia, mercado, padaria, tudo o que eu precisasse. Aqui, a vida é bem mais difícil: preciso pagar taxi para comprar qualquer coisa, ou depender da minha filha”, diz Enoemim. Ela sofre de um problema do coração e tem dificuldade para caminhar longas distâncias, embora se mantenha ativa nas tarefas domésticas.

Resposta da Cohab

A prefeitura afirmou que o imóvel ficava em um terreno público, em área de preservação ambiental ocupada irregularmente. Segundo a Cohab, esse foi o motivo que resultou na ação de despejo executada em 2012.

“Logo após o despejo, Enoemim foi atendida pela Cohab com auxilio-moradia no valor de R$ 350 mensais até ser encontrada uma solução definitiva. Posteriormente recebeu um sobrado no empreendimento Ferrovila Minas Gerais, no bairro Guaíra. Para que Enoemim pudesse viver junto dos filhos – reassentados no Moradias Arroio – a Cohab autorizou e houve uma permuta entre ela e um dos moradores do Arroio. Ambos trocaram de sobrado e foram contemplados em suas necessidades”, afirmou a Companhia de Habitação, por meio de sua assessoria de imprensa.

Desde 2012, o terreno na Vila Formosa segue ocioso e nenhuma das construções ao redor foi demolida.

Edição: Brasil de Fato PR