CULTURA

Artigo | Nos querem sem fúria

Querem tirar nossa vontade, através da burocratização das atividades culturais e da opressão do Estado e da polícia

Uberlândia

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A Prefeitura de Uberlândia interditou vários bares e espaços culturais da cidade / Prefeitura de Uberlândia / Ascom

A Prefeitura de Uberlândia interditou vários bares e espaços culturais da cidade. Alguns dos principais espaços, digamos, alternativos da cidade.

E assim segue a agenda da gestão municipal, que aparentemente preza pela prevenção de eventuais e futuros problemas estruturais nas construções e pela qualidade do serviço que as casas de cultura oferecem ao público, mas que mascara os verdadeiros objetivos: o controle e a precarização da atividade cultural e artística da cidade, provocando, através da intimidação e do medo, os agentes, artistas e produtores locais.

Vale lembrar que o bispo evangélico Crivella, no Rio, quer cancelar o Carnaval de 2018, deixando de repassar 50% da verba, o que inviabiliza totalmente o evento, alegando, na maior cara de pau, que essa grana vai para a merenda das criancinhas das creches nas periferias da cidade. Uma guerra contra a cultura popular e o que representa o samba e o Carnaval, mesmo que vendido há anos para os grupos globais e de cerveja.

Aqui na Roça do Dão, o prefeito ‘Coroner Odermo’ cancelou o Carnaval municipal inteiro, não foi só 50%, dizendo que era para pagar o funcionalismo. A revolta foi pouca e ficou por isso mesmo. Me pergunto se o Camaru, a festa agropecuária, será por algum motivo cancelada no mês de agosto? Lembremos que o prefeito ‘Odermo’ tá naquela foto famosa, com o Kim ‘Catupiri’ e o presidente preso Eduardo Cunha, fazendo um maroto joinha contente.

Em Sampa o ‘Doriano’ destrói prédio com gente dentro e expulsa morador de rua e crackeiro à base de banho de água fria e choque policial e quer processar os skatistas, depois destes terem sido atropelados por um motorista assassino.

Isso tudo não é coincidência. Essa é uma agenda nacional, de criminalização de artistas, de produtores, de espaços, casas de show e da arte de rua. Querem tirar nosso ímpeto, nossa vontade, através da burocratização das atividades culturais e da opressão do Estado e da polícia. Querem a cultura da Syngenta, massiva, burra, horizontalizante. Nos querem tristes, cabisbaixos, calados, sem voz, sem abstração, sem fúria. Sobretudo, sem fúria.

*Robisson Albuquerque é escritor.

 

Edição: Frederico Santana