Semiárido

“Sem cultura e organização popular não tem território", diz ativista da agroecologia

Comunidades e povos tradicionais do Submédio São Francisco (BA) partilham conhecimentos e denunciam violações de direito

Brasil de Fato | Remanso (BA)

,
A caravana percorreu parte do Semiárido baiano / Renda

A "Caravana Agroecológica do Semiárido Baiano: nos caminhos das águas do São Francisco" percorreu, entre os dias 26 e 30 de junho, seis municípios do Semiárido baiano: Juazeiro, Campo Formoso, Jacobina, Casa Nova, Remanso e Campo Alegre de Lourdes. Tendo a agroecologia como eixo estruturante, a experiência busca unir e compartilhar conhecimentos entre as comunidades. 

"Sem a cultura e sem a organização popular não tem comunidade, não tem território. Então, acho que a agroecologia contribui nisso porque ela traz os olhares dessas populações, os seus saberes, os seus modos de vida, a sua interação com a natureza local. A forma de vivenciarem o Semiárido, a questão da seca, o mercado da água e aqui as comunidades falam em convivência com o Semiárido, então acho que isso está muito atrelado a processos agroecológicos", indica Uschi Silva, da Rede Nordeste de Núcleos de Agroecologia (Renda).

No total, seis eixos orientaram a construção das rotas da caravana: os impactos da mineração, conflitos fundiários, conflitos por água, uso e impactos de agrotóxicos, experiências agroecológicas e resistências comunitárias.

Participaram da iniciativa representantes de movimentos populares, universidades, centros de pesquisas e órgãos públicos, para vivenciar diferentes realidades e contrastes. A caravana reúne cerca de 70 pessoas em duas rotas e refletiu sobre modelos de desenvolvimento e sistemas agroalimentares a partir de elementos comuns a bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

As caravanas agroecológicas são uma metodologia iniciada na preparação do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que aconteceu em Juazeiro, na Bahia, no ano de 2014 e, ao longo dos anos, vem sendo realizada para conhecer os territórios onde se desenvolvem a agroecologia, anunciando as experiências e denunciando as violações sofrida pelos povos.

Relatos

Cheila Bedor, professora da Universidade do Vale do São Francisco, a Univasf, e integrante da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), explica que a caravana reúne uma diversidade de olhares sobre o território do Submédio São Francisco. "Essa caravana tem um olhar interdisciplinar. Ela tem esse diferencial porque temos olhares de várias áreas, inclusive da saúde, para olhar para o território. Ela foi uma construção longa, de quase um ano, para identificar os territórios, para conversar com a comunidade, para a gente se conhecer um pouco antes. Então, a caravana já vem acontecendo há um ano nessa preparação para esse conhecimento que a gente vem adquirindo e agora a gente consegue fazer a caravana que está riquíssima".

A caravana também tem como proposta visibilizar as denúncias, conflitos e experiências de resistência e organização de comunidades dos municípios visitados. A região do Submédio São Francisco é uma região de muitos conflitos agrários, por conta das grandes obras presentes, que concentram água e terra. O agronegócio e o hidronegócio visam a expulsão dos povos que lutam e resistem por seus territórios.

"A gente está passando por várias cidades banhadas pelo rio São Francisco e essa Caravana Agroecológica vai passar por diversas comunidades para mostrar quais impactos essas comunidades estão sofrendo com os grandes empreendimentos vinculados ao território, principalmente vinculados a conflito de água e terra", explica Uschi.

Edição: Monyse Ravena