Mulheres no Esporte

Renata Mendonça: “É imprescindível termos a imprensa cobrindo o esporte feminino”

A parceria desastrosa do Santa Cruz para viabilizar o time feminino do clube também foi tema da entrevista

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Renata Mendonça é jornalista e colabora no site Dibradoras / Arquivo pessoal

Renata Mendonça é jornalista e colabora no site Dibradoras. Em entrevista concedida ao Brasil de Fato Pernambuco ela comenta o Regulamento de Licenciamento de Clubes (RLC), publicado pela CBF no início do ano e que obriga os clubes a terem equipes femininas. Ela também fala sobre o “ciclo vicioso” do futebol feminino e o papel da mídia para dar visibilidade aos esportes disputados por mulheres. O Dibradoras é um site com conteúdo esportivo produzido por mulheres e com ampla cobertura do futebol feminino. Além do site, estão no Facebook, Youtube, Twitter e Instagram

RLC

Sobre o Regulamento de Licenciamento de Clubes (RLC) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF): é uma polêmica, porque tudo que é obrigatório se torna polêmica. Eu acho que é uma ideia interessante, mas também cabe algumas críticas. Essa exigência da CBF na verdade é uma exigência da FIFA, que demandou das confederações a ela ligadas o investimento no futebol feminino.

A gente já experimentou diversas situações no futebol feminino e ele simplesmente não vai para frente por falta de vontade de muitas partes. Infelizmente em alguns casos precisa-se colocar a obrigação, porque por boa vontade ninguém vai fazer ou não vai fazer direito. Então acho que é importante a essa resolução da CBF, porque a gente precisa ter futebol feminino e a gente não tem por causa de preconceito que existe em cada um de nós. É isso o que freia o futebol feminino. Não é só a mídia, não é só a CBF, não é só dos homens que dirigem os clubes e que acham que futebol não é coisa para mulher ou que futebol feminino é chato. Também é nosso ao não incentivarmos as nossas filhas, as nossas sobrinhas a jogar futebol ou assistir futebol. Para quebrarmos essa corrente errada de preconceito a gente precisa de alguma coisa. E talvez essa regra seja a saída, porque já tentamos outras coisas e não deu certo. Acho justa a tentativa, porque precisamos abrir espaço para mulheres no esporte. Se não vai por bem, devido ao preconceito, então que vá por mal, na força. A gente precisa abrir a porta de alguma maneira.

A CBF deu um prazo para os times se acertarem, inclusive os clubes grandes podem se acertar com equipes tradicionais do futebol feminino, como já tem acontecido. Mas é importante que os clubes acordem para essa possibilidade. Enquanto não investirem no futebol feminino, a gente não sai do lugar. Os clubes precisam abrir as portas para as mulheres. É o primeiro passo.

O aspecto que eu acho complicado nessa resolução da CBF é incluir na exigência os clubes das séries C e D. Os clubes dessas séries já têm muitos problemas, não têm dinheiro para sustentar os times, não possuem nem calendário para jogar o ano inteiro, então a resolução acaba criando mais um problema para eles. Acho complexo isso. Temos que resolver também os problemas do futebol masculino das séries C e D. Um calendário que não possui jogos o ano inteiro, ruim, que faz com que clubes não consigam se sustentar. E agora vai ter que fazer futebol feminino. Como vai fazer isso? Talvez essa regra devesse ser só para as séries A e B nesses próximos anos, enquanto fortalece os clubes das séries C e D, para no futuro exigir deles o futebol feminino.

PARCERIAS

Mesmo que os times façam parceria com times de futebol feminino que já existem, não deixa de ser uma multiplicação de times de futebol feminino. E o ponto que acho que tem que ser tocado, tanto das regras da CBF como as da Conmebol (Confederação Sul-americana de Futebol), de que não vai deixar os clubes jogarem a Libertadores sem terem times de futebol feminino, é que exigem coisas importantes, como estar disputando campeonato, ter pagamento em dia, que não é pra você fazer de conta que está fazendo futebol feminino - como o Santa Cruz fez erradamente no início do ano e como acontece muito no futebol feminino. É pra fazer direito. Eu não veria problema se o Santa Cruz tivesse feito uma parceria legal com um time que já existe e investisse nisso, como fez o Corinthians ao se juntar ao Audax, em 2016, por exemplo. Uma parte era investimento do Corinthians e outra parte foi o Audax. Uma parceria bem sucedida e o time foi campeão da Copa do Brasil. E por essa parceria o Corinthians viu que dava para andar com as próprias pernas e o Audax também. No Brasileiro deste ano os dois times atuaram.

Lógico que não sou a favor das coisas feitas "nas coxas". Mas acho que as exigências ajudam o time a cumprir com suas responsabilidades. Se isso que o Santa Cruz fez, fosse em 2018, o time masculino não poderia disputar o Campeonato Brasileiro, porque acabou o time feminino e foi muito errado o que o clube fez. Antes de tudo acontecer chegamos a entrevistar o Farges Ferraz, técnico do time feminino. Ele falou que era um bom projeto, mas meses depois tudo acabou. O grande clube não compra a ideia. Não adianta fazer algo sem os dirigentes comprarem a ideia. Tem que querer. Se não quiser fazer, vai dar errado. O Sport está fazendo agora.

O São Paulo já fez em 2015 o mesmo que o Santa Cruz fez este ano. Deu uniformes do masculino para as meninas - deu uniformes antigos, até - e o patrocinador caiu fora e o São Paulo teve que arcar, para não ficar com a má fama e com os processos trabalhistas. Tem que ser feito porque quer. Só que a obrigação de ser feito é assim: se você não quer fazer, tudo bem, mas também não disputa o masculino. E se o Santa Cruz não disputar o masculino, ele acaba, porque é o seu motivo de existir. Para ele se adequar às regras ele vai ter que fazer um time de futebol feminino decente e vai ter que bancar e arranjar suas formas de fazê-lo. Não acho certo essas parcerias que se originam de uma falta de vontade de fazer direito. E eu sou contra não fazer direito. Mas se você fizer uma parceria legal, como Crionthians/Audax, é positivo.

CICLO VICIOSO

Temos um ciclo vicioso no futebol feminino. Os clubes não investem porque não têm retorno financeiro em patrocínio, o campeonato fica sem qualidade, a mídia não transmite porque diz que não tem qualidade e que o público não se interessa, e aí os patrocinadores não investem porque não tem exposição de mídia, o público também não fica sabendo porque a mídia não transmite, então o público também vai ser baixo - até porque os jogos são colocados em horários bizarros, com jogos no meio de semana às 3h da tarde. Quem pode ir ao estádio numa segunda-feira à tarde ver o time feminino jogar? Será que se fosse o time masculino, numa segunda-feira às 3h teria público? Acho difícil. É horário de trabalho. O futebol feminino padece de todos esses problemas. E a chave para resolvermos isso é quebrar em algum dos lados esse ciclo vicioso, para transformá-lo num ciclo virtuoso.

Acho que o primeiro desafio disso, como a gente sempre disse, começa pela CBF. Eu ampliaria. Começa por três origens: CBF, governo e pais dentro de casa.

1) A CBF tem responsabilidade pela organização do campeonato nacional e pela seleção feminina. Ela precisa investir nesses dois e vender esse produto. Se a CBF não se importa em vender esse produto, ninguém vai querer comprar. E aqui nesse ponto a gente começou a andar, porque pela primeira vez a gente teve um campeonato que oferece premiação. Nunca antes um campeonato feminino brasileiro ofereceu premiação, então não tinha incentivo para os clubes participarem. Mesmo que fosse campeão, não ganhava nada com isso. A CBF também tem divulgado resultado, tabela, feito matérias, com jogadoras da Seleção e dos clubes, o que é importante. Não adianta a CBF cobrar da mídia que não transmite, que não fala do futebol feminino, se a própria CBF também não fala. O ciclo negativo está começando a ser quebrado nesse aspecto dentro da CBF.

Ainda temos que ver se esse é o modelo ideal para o campeonato brasileiro, com duas divisões. Aumentou o calendário, mas acabou com a Copa do Brasil. Ainda temos que achar esse modelo. Mas agora está havendo um pouco de atenção ao futebol feminino, porque antes era tudo largado.

2) Da parte do governo a gente precisa mudar o aspecto da educação física. E aí não é só o futebol feminino. É que as mulheres, as meninas, sofrem mais em consequência da educação física péssima que a gente tem na escola. Inúmeros relatos de meninas que afirmam nunca terem tido aula de educação física, porque o professor dava a bola para os meninos jogarem futebol e as meninas ficavam conversando na sala ou tinham algum tempo livre. Futebol para meninas é praticamente proibido dentro das escolas. Então faz parte do papel do governo incentivar o esporte igualmente e capacitar os professores de educação física para que eles incentivem o esporte entre meninos e meninas de maneira igual.

3) Com relação aos pais, a primeira mudança, essencial, que agora a CBF começou a acordar, é a nossa cultura. Temos que acabar com esse estigma de que mulher não pode gostar de futebol, que mulher não pode jogar bola. Quantas meninas dentro de casa têm que brigar com a família para poder jogar bola?! Acaba por ser mais um obstáculo. Até por isso o nome do nosso projeto é Dibradoras, porque a menina para jogar futebol, ela precisa "dibrar" tudo isso, até dentro de casa. Então precisamos mudar a cultura que temos na nossa família e dar uma bola de presente para a menina, porque ela não precisa brincar só de boneca. Um incentivo assim é importantíssimo.

Acho que a gente começa a quebrar esse ciclo vicioso nesses três aspectos: CBF, governo e nós mesmos, porque temos um papel nessa mudança. E acho que esse é o início.

MÍDIA

Acho que a mídia também precisa acordar. Temos uma pesquisa que mostra que 97% da cobertura da mídia esportiva é de esportes masculinos e só 3% é dedicado ao esporte feminino. Isso mostra que o esporte feminino está sempre relegado ao lugar de secundário, um lugar do qual elas nunca vão conseguir evoluir enquanto a mídia não mostrar. A mídia atrai patrocínio, investimento. Sem a mídia não tem dinheiro. É imprescindível a gente ter a imprensa cobrindo o esporte feminino como ele merece, não fazendo matéria de "musa" da ginástica ou foto sensual de alguém. Não! Cubram o esporte! Essas atletas merecem atenção tanto quanto os esportistas homens. Porque aí vem uma desculpa de que não tem interesse. Mas como as pessoas podem se interessar por algo que elas nem sabem que existe?

A Olimpíada foi a maior prova disso. Temos inúmeros dados. A 4ª maior audiência das Olimpíadas no Brasil foi a transmissão das quartas de final do futebol feminino, Brasil x Austrália. Um jogo numa sexta à noite e todo mundo parou para ver. Será que não tem interesse? Tem gente que fala que na Olimpíada todo mundo assiste qualquer esporte. Será que se fosse tênis de mesa as pessoas teriam parado para ver? Eu fui na semifinal do futebol feminino, Brasil x Suécia e o Maracanã tinha 70 mil pessoas gritando o nome de Marta. Não dá para dizer que não tem interesse. A gente precisa aproveitar, porque tem sim. E mesmo que não tivesse demanda, a gente poderia criar, como foi criada com a NFL, por exemplo. O futebol americano tinha alguma demanda no Brasil? Não. Mas a ESPN começou a passar, a explicar as regras, e hoje é uma febre no Brasil.

Outros números: depois das Olimpíadas o esporte que mais despertou interesse do público, além do futebol masculino, foi o futebol feminino. Foram 51% das pessoas dizendo que gostariam de saber mais sobre a modalidade. Eu acho que estamos perdendo uma oportunidade imensa, principalmente as TVs. Porque a primeira que começasse a transmitir alguma coisa logo após as Olimpíadas iria conseguir alavancar a audiência sim. O tanto que recebemos de mensagens de gente dizendo que tá querendo saber mais do futebol feminino, teve toda aquela polêmica de seleção feminina x seleção masculina, e a mídia não soube aproveitar aquele momento para começar a fazer uma cobertura, sabe? A gente precisa disso porque é isso que vai inspirar mais meninas a jogarem e porque é a mídia que dá a exposição que os patrocinadores precisam. É justíssimo que a mídia entenda seu papel, que é cobrir o esporte. Por que só cobrir o esporte masculino? Por que só falar de atletas homens? Por que não dar espaço às mulheres? Esses números mostram que a audiência das Olimpíadas e o interesse após, também o Torneio de Manaus que estourou em audiência da CBF na transmissão online, mostra como as pessoas querem ver.

Agora o SporTV está transmitindo alguns jogos de futebol feminino. Mas será que eles estão falando disso nos jornais e nos programas do SporTV? Não adianta nada você colocar o jogo e não falar dele, ninguém saber que está passando na TV. Precisa se discutir isso. A mídia tem um papel imprescindível e talvez ela tenha que ir "na marra", com a CBF fazendo pressão, é a sociedade fazendo pressão e aí quem sabe a mídia vai entender a importância disso e vai começar a fazer. Mas acho que é isso: estamos começando a romper esse ciclo. A gente está num momento muito bom, com a FIFA fazendo um esforço para fortalecer o futebol feminino, e também no país um momento de empoderamento da mulher. É o momento de cobrarmos essa mudança e cobrarmos da mídia, aproveitarmos a onda.

Edição: Monyse Ravena