América Latina

Artigo | O jornalismo de guerra e a Venezuela

A mídia global atiça o incêndio social e político na Venezuela para de legitimar uma intervenção estrangeira

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Marcha de chavistas em Caracas, capital venezuelana, em abril deste ano
Marcha de chavistas em Caracas, capital venezuelana, em abril deste ano | Crédito: Carmen Meléndez‏/Gestion Perfecta

A expressão "jornalismo de guerra" aparece no livro Clarín, La Era de Magnetto, escrito por Martin Sivak, publicado em Buenos Aires. Segundo o autor, o Clarín (espécie de O Globo, argentino) "mudou sua forma de fazer política e passou a fazer um jornalismo de guerra", referindo-se à dura campanha desencadeada contra o governo de Cristina Kirchner. O próprio jornal, através de um de seus editores, Julian Blanck, reconheceu essa prática.

Vê-se agora que ela não é exclusividade do Clarín nem da Argentina. A eleição para formar a Assembléia Constituinte, convocada pelo governo da Venezuela e realizada no dia 31 de julho, mostrou que o "jornalismo de guerra" se espalha pelo mundo.

Formou-se quase uma unanimidade internacional midiática contra o governo venezuelano, tornando mais agudos e profundos os ataques que já eram constantes desde o início do primeiro mandato do presidente Hugo Chávez.

Um modelo político e econômico na América Latina que amplie a participação da população nas decisões do Estado e estenda benefícios sociais a parcelas maiores dessa mesma população é inconcebível para esses meios de comunicação.

A convocação da Constituinte foi, para eles, uma afronta. Não admitem uma organização política e social cuja formulação tenha origem em representações abrangentes da sociedade. Uma discussão que passa longe da mídia tradicional. Aqui no Brasil, como em vários outros países, a mídia praticamente escondeu aquilo que era o mais importante e a grande inovação de todo o processo: a forma de composição da nova Assembleia.

Foram eleitos 545 constituintes, dos quais 364 representam os municípios venezuelanos (um por município, dois por capital de estado e sete por Caracas, a capital do pais) e outros 181 dividem-se em 79 trabalhadores da ativa, 28 aposentados, oito camponeses/pescadores, oito indígenas, cinco pessoas com deficiência, cinco empresários, 24 estudantes e 24 representantes de conselhos comunais. Algo muito distante das bancadas brasileiras do boi, da bíblia, da bala e assemelhadas que ocupam o Congresso Nacional e deturpam a representação popular.

A ousada iniciativa venezuelana mereceria não apenas a informação pura e simples, mas uma discussão aprofundada em entrevistas e debates no rádio, na TV, em jornais e revistas. O que se viu não foi nada disso. A mídia brasileira, e outras pelo mundo, reduziu a experiência da Venezuela a cenas de violência e a depoimentos escolhidos a dedo, extraídos de opositores do atual governo.

Em alguns jornais ficou clara a decisão do repórter de só circular por bairros ricos de Caracas onde a oposição ao governo e o repúdio à Constituinte era forte. Não se deu ao trabalho de ouvir pelo menos um, dos mais 8 milhões de venezuelanos que foram às urnas.

Seria o mínimo a se esperar de uma cobertura jornalística de qualidade. Mas poderíamos produzir muito mais, com mais seriedade e menos propaganda política. Penso num programa de TV que esmiuçasse o processo eleitoral da Venezuela, com um breve documentário explicativo seguido de um debate com especialistas aprofundando o tema. Indo além das eleições e enveredando pelo papel que a nova Constituição terá no enfrentamento dos difíceis problemas vividos pelo país. Dessa forma a televisão estaria cumprindo sua vocação de serviço público, aproximando o telespectador brasileiro de uma realidade que está ao nosso lado mas que nos chega, quase sempre, enviesada.

Infelizmente, por aqui não existe esse compromisso. A Venezuela nas telas de nossa é TV é um país convulsionado, onde bombas são jogadas sobre policiais e os autores desses atentados não são identificados, simplesmente porque fazem oposição ao atual governo. Sem falar nos chamados comentaristas, sempre prontos a rezar pela mesma cartilha oposicionista, alguns até em tom de deboche.

É lamentável mas não somos os únicos a deparar com esse tipo de "jornalismo de guerra". Em Portugal, o sociólogo Boaventura Sousa Santos disse ao jornal Público "sentir-se chocado com a parcialidade da comunicação social europeia, incluindo a portuguesa, sobre a crise da Venezuela, um enviesamento que recorre a todos os meios para demonizar um governo legitimamente eleito, atiçar o incêndio social e político e legitimar uma intervenção estrangeira de consequências incalculáveis". 

Editado por: Carta Maior
Conteúdo originalmente publicado em: Carta Maior

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