Cultura

Trajetória do ator Mário Gusmão é tema de peça da Cia de Teatro da UFBA

Com um público de mais de 2400 pessoas peça Gusmão: o Anjo Negro e sua Legião marca a história da Cia de Teatro da UFBA

Salvador (BA)

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Mario Gusmão, ator e bailarino baiano, foi o primeiro ator negro a se formar pela Escola de Teatro da UFBA, em 1960. / Diney Araújo

Sob a direção de Tom Conceição, “Gusmão: o Anjo Negro e sua Legião” passou pelo palco do Teatro Martim Gonçalves na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, entre os dias 27 de julho e 13 de agosto.

Com 14 apresentações e um público total de cerca de 2400 pessoas, a peça homenageia o ator e bailarino baiano Mario Gusmão, o primeiro ator negro a se formar pela Escola de Teatro da UFBA, em 1960. Natural da cidade de Cachoeira no recôncavo baiano, Mário veio para a capital trabalhar e estudar ainda na década de 50. Gusmão fez 16 filmes, dezenas de peças, novelas, mas acabou falecendo aos 68 anos, em 1996, em uma situação de abandono e pobreza.

Por meio da história de vida do ator, a montagem apresenta acontecimentos do dia a dia dos negros e das negras brasileiros, marcado pelo racismo através da invisibilidade, criminalização, encarceramento e extermínio. A Companhia de Teatro da UFBA tem três décadas de existência e atualmente realiza duas montagens por ano através de edital interno, no qual os professores da Escola podem inscrever projetos. Porém essa é primeira peça que tem no seu elenco apenas atores negros, e já nasce com a proposta de teatro diferenciada.

O diretor da peça Tom Conceição, é doutorando pela Escola e foi convidado por professores para construir o projeto. Apesar de trabalhar com teatro de rua, aceitou o convite. Tom atua no teatro há mais de 20 anos, desde o bairro de Marechal Rondon onde morava, passando pela Escola Livre de Teatro e pela Licenciatura em Teatro da UFBA.

“Esse projeto nasce da vontade de alguns professores de fazer um teatro diferente do que vinha sendo feito. Acabamos encontrando o mote em Mário Gusmão, que foi um mote muito especial para a realização desse projeto porque a partir dele homenageamos um grande ator e bailarino, mas a gente encontra os temas e as problemáticas que nos atravessam ainda hoje. Então é uma homenagem, mas também uma critica social atual e necessária. É um teatro de negro feito para negros e brancos”, pontua Tom. 

Juliana Monique, integrante do elenco e estudante de licenciatura em Teatro da UFBA, diz que fazer uma peça com temática negra e homenageando um negro é difícil, pois não é rotineiro e nem está no imaginário coletivo, que tem raízes racistas e elitistas. “Quando temos um processo como esse, que coloca o negro em cena e sai dos estereótipos, que traz o discurso para essa população negra, todo mundo que assiste sente que toca de alguma forma. E estou crescendo não só como atriz, mas como pessoa. Conseguimos trazer também um povo negro que se enxerga em cena, que faz analogias com sua vida, com o Pelourinho, com a Cidade Baixa, e isso pra gente é fantástico”, afirma Juliana.

“Por ser um projeto com prazo, não tem perspectiva de continuidade. Uma oportunidade de continuar é se ele sai do âmbito da escola, se alguém assume a produção e leva para outros espaços. Mas, na escola, é datado. De toda forma, o recado foi dado”, finaliza Conceição.

Edição: Elen Carvalho