Prefeitura

Em São Paulo não faltam recursos, falta gestão pública, diz vereadora sobre Doria

Juliana Cardoso (PT) diz que arrecadação da Prefeitura hoje é 4% maior do que do ano passado

Brasil de Fato| São Paulo (SP) |

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Juliana no plenário da Câmara. Jovens vereadores segundo ela apresentam projetos de privatização do serviço público
Juliana no plenário da Câmara. Jovens vereadores segundo ela apresentam projetos de privatização do serviço público - Reprodução/Facebook

Mãe, descendente de indígenas, militante do movimento popular e formada em gestão pública. A vereadora Juliana Cardoso (PT), aos 37 anos, está em seu terceiro mandato e desenvolve um extenso trabalho voltado à saúde, moradia, mulheres e direitos humanos na Câmara Municipal de São Paulo. 

Em entrevista concedida ao Brasil de Fato, Juliana comentou o discurso do prefeito João Doria, que sempre ressalta a falta de verbas para a cidade: "essa gestão diz que não tem recurso. E a gente começa a compreender que isso não é real e os números não mentem. A gente começa a perceber que, de fato, não há uma gestão pública, a cidade está sendo pensada numa lógica de gestão privada", diz.

Confira a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato: Juliana, como você enxerga hoje a gestão municipal da cidade? 

Juliana Cardoso: As políticas públicas não estão acontecendo na cidade de São Paulo. De fato há um desmonte nas áreas-fins, como saúde, assistência social, educação e para as mulheres. A gestão diz que não tem recurso, mas a gente começa a compreender que isso não é real, e os números não mentem. Ele [João Doria] conseguiu ter uma arrecadação de 4% a mais do que agosto de 2016. Estamos percebendo que, de fato, não há uma gestão pública, mas que a cidade está sendo pensada numa lógica de gestão privada.

Hoje, com as eleições e a entrada de novos vereadores, imagino que o clima da Câmara se modificou, como estão os embates políticos na casa?

Primeiro, entraram muitos vereadores novos e jovens e com a visão que a política pública tem que ser vinculada às iniciativas privadas, ao Estado mínimo e dando apoio aos projetos de lei da privatização, como o projeto que está na Casa, que é a venda da cidade de São Paulo em cinco aspectos: cemitérios, mercados, mobiliário urbano, terminais/bilhetagem e os parques municipais. Alguns [projetos] vêm como privatização ou concessão, mas o projeto começa de forma inconstitucional, porque não traz estudo do impacto do que isso gera de orçamento para a cidade de São Paulo e de porque temos que nos desfazer, dando para a iniciativa privada.

Muito bem Juliana. Essa questão dos cortes do orçamento são bem importantes para a gente entender como funciona a gestão pública. Pelo que você explicou não temos esse problema de falta de recurso, então para onde está indo esse dinheiro que a prefeitura não está investindo? 

A gente tem também que pensar quem é o nosso secretário de finanças hoje. É um secretário [Caio Megale] vinculado ao Banco Itaú...O que quero dizer com isso? Nós estamos quase apostando que no final do ano vai ter sobra de recurso para que João Doria comece a fazer investimento em zeladoria e dizer que está trabalhando, mas nessa visão de se projetar como candidato à presidência da república...

Juliana fez alertas importantes sobre a condução da prefeitura por João Doria que, como ela diz, tudo indica que está tentando se erguer como candidato à presidência.

É importante que a gente conte para as pessoas o que está acontecendo aqui em São Paulo e que a figura do João Trabalhador não existe... o prefeito mal fica aqui, né, Juliana?

Ele mal fica aqui, a agenda dele desses oito meses foi 40% fora da cidade de São Paulo, 10% fora do país e o restante vinculado ao setor da iniciativa privada...

Enquanto acompanha de perto o que essa gestão tem feito com as políticas públicas para as mulheres, como você avalia tudo que tem sido feito e não feito?

As casas abrigo que são específicas para a questão das mulheres não tiveram repasse do orçamento. É um desmonte que tem acontecido silenciosamente...

Como é essa relação do prefeito com os vereadores e com os próprios conselhos como o de saúde e habitação? Me parece que eles não são ouvidos na hora de pensar política...

Ele está diminuindo drasticamente o número de conselhos das subprefeituras, que agora ele chama de prefeitura regional...Eles não gostam de povo, de conselho, ele acabou com o conselho consultivo da cidade que o prefeito Fernando Haddad tinha implantado com diversos especialistas e movimentos. Agora há só um conselho vinculado à iniciativa privada de grandes banqueiros e multinacionais que ficam ali dialogando com proveito sobre a melhor maneira de lucrar com a cidade.

Ouça esta entrevista no áudio acima. 

Edição: Vanessa Martina Silva