Comunicação

Webrádio feita por jovens negros pretende debater temas não abordados na grande mídia

Afroativismo Digital nasceu por iniciativa de mulheres negras; lançamento acontece nesta sexta (25), em São Paulo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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"A partir do rádio a gente consegue fazer com que as pessoas saibam que nós estamos aqui, que temos uma produção importante", diz Aretuzah / Divulgação

Os veículos tradicionais de comunicação não contemplam as iniciativas que surgem nas periferias brasileiras e não narram suas histórias. Essa é uma crítica frequente feita pelo movimento negro e foi pensando nisso que nasceu, em maio de 2015, o Afroativismo Digital, um projeto idealizado pela comunicadora Ana Bernardino, conhecida como Aretuzah.

Pensando nessas questões e para potencializar vozes, narrativas e histórias da juventude negra da cidade de São Paulo, o Afroativismo Digital lança, nesta sexta-feira (25), uma webrádio. O projeto foi possibilitado pelo edital "Redes e Ruas", da Prefeitura de São Paulo, com o qual o coletivo foi contemplado em 2016, no final do governo de Fernando Haddad (PT).

O lançamento acontece nesta sexta (25), a partir das 19h30, no quilombo urbano Aparelha Luzia, localizado na Rua Apa, nº 79, no bairro Campos Elíseos, região central da cidade. Em sua abertura, o evento contará com o bloco Ilú Obá de Min, discotecagem da DJ Miria Alvez e com uma roda de conversa sobre democratização da mídia.

História

A plataforma online, que é gerida principalmente por mulheres negras, busca ampliar na internet os fóruns de visibilidade das questões raciais. Aretuzah conta que a participação social é grande e constitui uma resposta à invisibilidade das pautas da população negra nas mídias tradicionais.

"O que nós temos notado é que cada vez mais adolescentes, crianças, mulheres se interessam por esses veículos, por poder participar de alguma forma das decisões do espaço público e que são pessoas que estão à margem disso tudo, à margem da sociedade e que, muitas vezes, os veículos tradicionais não chegam e quiçá abordam essas questões das produções que acontecem nas periferias", comenta a fundadora do projeto, em conversa com o Brasil de Fato.

Aretuzah conta que a juventude negra, nesse cenário, tem protagonismo: "Eu vejo pessoas muito jovens que gostam de jornalismo, que estão começando a se sentir indivíduos que representam a sociedade a partir do nosso veículo, da possibilidade de você instruir, visibilizar e dar essa plataforma nas mãos de quem não tem nem um veículo de comunicação disponível".

Formação

O modelo surge após a realização de diversas oficinas de locução radiofônica, manejo técnico das plataformas digitais e linguagem facilitada para jovens negros de diferentes regiões da cidade, em especial as áreas periféricas da Zona Norte e Noroeste. "A plataforma, o rádio, nos coloca no mundo. A partir do rádio a gente consegue fazer com que as pessoas saibam que nós estamos aqui, que temos uma produção importante, que o que a gente faz é visto", explica Aretuzah.

Os jovens poderão enviar suas produções ou mesmo sugestões de artistas que ouvem e cujas produções não têm acesso às rádios tradicionais. Também será possível fazer participações ao vivo, que depois viram podcasts e serão disponibilizado pelas redes sociais.

A psicóloga Ester Horta de Paula é uma das colaboradoras do projeto. Ao longo do último semestre, ela deu oficinas de linguagem e comunicação para diferentes grupos de jovens e diz que, muitas vezes, o que falta é oportunidade para contar essas histórias. "Cada grupo que se tem contato é diferente. Trazem ideias diferentes, experiências. A informação está com eles, eu nem trago nada muito novo. São coisas que eles já sabem, é só instrumentalizá-los e dali vão surgindo ideias", diz. 

Ester comenta que viu muitas coisas em comum entre os grupos para os quais deu oficinas. Uma delas, segundo a psicóloga, é a falta de visibilidade da periferia na televisão e em outras mídias: "Ver também a realidade das escolas, o quanto tem professores engajados falando dessa temática de democratização da mídia com os alunos. E os alunos também, apesar de não saberem o termo 'democratização da mídia', sabem que não têm espaço de fala, que [as mídias tradicionais] só falam coisas negativas do que está acontecendo".

Ester comenta a importância de ter um meio de comunicação que converse com a realidade desses jovens: "E quando eles têm um espaço para falar sobre isso é um alívio, ou quando compreendem que não é uma culpa da periferia, mas sim de uma estrutura maior, e que não tem nada de errado em se organizar e ter o próprio meio de comunicação e sair dessa grande mídia, porque esperar que ela vá falar, de fato, o que acontece é algo bem frustrante".

 

Edição: Vanessa Martina Silva