Intromissões

Após tentarem retirar líder opositora do país, Venezuela notifica diplomatas europeus

Segundo ministro venezuelano, embaixadores de Espanha, Itália, Alemanha e Reino Unido tiveram "postura desrespeitosa"

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Embaixadores, como o espanhol Jesús Silva, tentaram usar imunidade diplomática para tirar do país Lilian Tintori, esposa de Leopoldo López / Fania Rodrigues/Brasil de Fato

O governo venezuelano convocou os embaixadores da Espanha, da Itália, da Alemanha e do Reino Unido para dialogar e entregar notas de protesto sobre as "intromissões" dos países nos assuntos internos venezuelanos. As reuniões ocorreram a portas fechadas e individualmente nesta segunda-feira (4). Segundo o ministro do Poder Popular para as Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, os embaixadores e os governos desses países têm mantido uma "postura desrespeitosa" em relação à Venezuela.

"Tivemos que convocar esses embaixadores, em caráter de urgência, devido às intromissões permanentes deles e de seus governos em assuntos internos da Venezuela, no funcionamento da sua democracia e de seus poderes públicos", disse o ministro venezuelano, em um pronunciamento à imprensa logo após os encontros.

Um dos fatos que levou ao protesto do governo venezuelano é que, no último sábado (2), os embaixadores da Alemanha, da Itália e da Espanha acompanharam a ativista Lilian Tintori, esposa do político opositor Leopoldo López, que se dirigia ao Aeroporto Internacional Simón Bolívar para deixar o país.

Ela embarcaria para a Europa para encontrar os chefes de Estado dos quatro países notificados pela chancelaria venezuelana, em uma "turnê internacional" para denunciar as "violações de direitos humanos e a crise humanitária" na Venezuela, conforme informou em sua conta no Twitter. O marido de Tintori, Leopoldo López, está em prisão domiciliar, acusado de planejar e participar de protestos violentos em 2014. Segundo dados oficiais, 43 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas em protestos da oposição no período.

No entanto, Tintori foi impedida de deixar o país, pois está intimada a comparecer na Justiça em uma investigação, iniciada na última semana, após ter sido flagrada portando em seu veículo 205 milhões de bolívares (mais de US$ 61 mil pelo câmbio oficial). A quantia foi considerada incomum, devido às restrições de acesso a dinheiro vivo em meio à crise econômica por que passa o país. Na ocasião, sua família teria dito que o dinheiro seria para pagar despesas médicas de sua avó, que está doente.

"Queremos pensar, e disse isso aos embaixadores, que eles foram utilizados pela senhora Tintori. Pois, mesmo tendo uma medida judicial por fatos que ela mesma admitiu, foi ao aeroporto sabendo que não poderia sair do país devido ao processo que responde. Inclusive, já havia preparado uma entrevista coletiva [para após a tentativa de embarque]", relatou o ministro venezuelano.

Arreaza afirma ainda que os embaixadores infringiram a Convenção de Viena, que regula a atividade diplomática. Segundo este tratado, os diplomatas não podem usar "seus privilégios e imunidade diplomática para desrespeitar as leis. Deverão respeitar os regulamento do Estado onde estão acreditados. Têm o dever de não intervir em assuntos internos do país", diz o artigo 41 da convenção, do qual todos os países que integram a Organização das Nações Unidas (ONU) são signatários.

Posição da Espanha

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o embaixador da Espanha na Venezuela, Jesús Silva, disse que o encontro com o ministro Arreaza foi um "diálogo muito interessante".

"Foi um diálogo muito interessante e franco com o chanceler. Quero agradecer ao governo venezuelano por nos dar a oportunidade do diálogo. Reiteramos que a Espanha é parte da solução e não do problema. Estamos trabalhando para apoiar todo o esforço que caminha para a negociação e a concórdia entre os venezuelanos. Queremos que haja paz e prosperidade na Venezuela. Esse é o nosso único interesse", declarou o embaixador.

A Espanha, por meio do ex-presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, tem desempenhado o papel de medidor do diálogo entre os líderes dos partidos opositores e o governo do presidente Nicolás Maduro. 

O embaixador espanhol disse estar otimista quanto à negociação e ao diálogo que está sendo travado entre as duas partes. "Nós esperamos que haja uma negociação e um acordo com a oposição. Sobretudo, esperamos que exista uma vontade sincera de se chegar a um acordo. A Espanha vai continuar apoiando esse processo da busca pelo diálogo e por um acordo", afirmou o diplomata espanhol.

Edição: Vivian Fernandes