Poetas urbanos

Conheça o Slam, a batalha de poesias que tomou as ruas das cidades

Homofobia, racismo, machismo e violência estão entre os temas abordados pelos poetas urbanos

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Slam Resistência, acontece na primeira segunda-feira do mês, na Praça Roosevelt, em São Paulo / Norma Odara

São Paulo, Praça Roosevelt, no centro. Toda primeira segunda-feira do mês, pessoas de diversas partes da cidade se reúnem para ver e ouvir poetas urbanos recitar suas poesias.

Sob aplausos e gritos emocionados, o poeta se prepara para receber notas dos jurados populares, tirados entre o público. Na sequência, dá lugar a outro poeta, em uma nova rodada de palavras e rimas.

É assim que acontece o Slam, uma competição de poesias faladas que surgiu em Chicago, nos Estados Unidos, em meados dos anos 80, na mesma época do hip-hop.

Os textos recitados nas batalhas retratam dramas cotidianos, como a homofobia, o racismo, o machismo, preconceito, a violência do Estado, entre outras situações.

A batalha de poesias faladas se espalhou por capitais brasileiras como Belo Horizonte, Curitiba e Rio de Janeiro. Em São Paulo já conta com mais de 50 coletivos que viabilizam a atividade em várias regiões da cidade.

Del Chaves é músico, poeta e um dos fundadores do Slam Resistência, que acontece na Praça Roosevelt e é um dos primeiros da capital paulista.Ele conta que para participar das batalhas tem que ter procedimento. Explica aí, Del Chaves, qual é o regulamento? 

"São poesias autorais, em até 3 minutos. Que você vai utilizar apenas o corpo e a palavra, sem roupagem teatral, objeto cênico ou instrumento musical, só você, a palavra e a intervenção. São escolhidos jurados na hora, entre o público, tem sempre o matemático, que calcula o tempo e as notas, que são geralmente de 0 a 10", comenta o artista. 

No Slam, existem diversas modalidades, como por exemplo, o “menor do mundo”, onde os poetas apresentam suas poesias em 10 segundos. Tem também o slam "Racha Coração" com temática sobre amor. Além disso, existe o "Slam das Minas SP", único voltado para o gênero feminino.

A slammer e produtora cultural Mel Duarte começou a participar das batalhas no Slam da Guilhermina, o segundo do Brasil e um dos mais tradicionais de São Paulo. Já ganhou diversas competições, incluindo o Slam Resistência e a Flupp, a Festa Literária das Periferias. Ela fala sobre as temáticas de seus poemas:

"Eu falo sobre muita coisa. Mas tem muito o ponto da questão da mulher negra na sociedade. Por eu ser uma mulher negra, a gente sabe que tem toda essa questão da invisibilidade das mulheres negras na literatura , acho que isso é uma coisa muito importante de pontuar e de contar a minha história através da minha própria voz", relata Mel.

A poesia do Slam se difundiu de tal forma que neste ano o cantor e compositor brasileiro Curumin, colocou na faixa "O Burguês que deu errado", do seu mais novo álbum "Boca", trechos da poesia do slammer Beto Bellinate:

"Sabotagem sem massagem na mensagem!

É o seguinte: Eu sou homem branco e heterossexual

Teoricamente, isso faz de mim um bosta!

Num precisa ser estático, mas é estatístico

Vamo caminhar

Que fique claro, ou escuro

Não falo de mim, só do meu umbiguinho

Porque eu não tô falando de indivíduo

De caráter, de bondade

Eu tô falando de história

De patriarcado, de sociedade

Daquilo que é maior

Que molda a gente, que molda a mente

Eu tô falando do tempo."

 

Edição: Camila Salmazio