7 DE SETEMBRO

Grito dos Excluídos reúne 5 mil pessoas no Recife (PE) contra retrocessos

Com movimentos religiosos e populares, manifestação criticou o golpe de 2016 e a retirada de direitos

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Este ano o ato teve como tema “Por direitos e democracia a nossa luta é todo dia” / Fotos: Vinícius Sobreira/Brasil de Fato

Com o tema “Por direitos e democracia a nossa luta é todo dia”, o Grito dos Excluídos reuniu cerca de 5 mil pessoas na capital pernambucana na manhã desta quinta-feira 7 de setembro, feriado do Dia da Independência. Com muita música e religiosidade, o ato se concentrou a partir das 8h na Praça do Derby, região central do Recife, e saiu em caminhada a partir das 11h, cruzando a avenida Conde da Boa Vista e se encerrando com uma ciranda na Praça da Independência, bairro de Santo Antônio.

Vindo de Gravatá, no Agreste de Pernambuco, o educador de técnicos em agroecologia Abdalaziz de Moura, acredita que a quantidade de pessoas é relevante, mas a “qualidade” da manifestação é fundamental para que o Grito chegasse à sua 23ª edição. “Sendo 10 pessoas ou mil, esse ato continua fazendo sentido. As diversidade de pessoas, representatividade, faixas etárias e bandeiras é muito bonita. As pessoas se unem em torno do direito de ter direitos. É muito importante que atos dessa natureza se repitam”, opina.

A freira Irmã Marlene Cavalcante foi à manifestação para expressar seu descontentamento com o momento atual do Brasil. “Quando mais a população se envolve em momentos como este, mais estamos exigindo dos governantes que respeitem os direitos do povo”, pontua.

Na sua opinião, é dever cristão fortalecer a luta da população. “Uma coisa tem tudo a ver com a outra. Somos o povo de Deus. E já no Antigo Testamento lutávamos por direitos sempre que desrespeitados, como está acontecendo hoje”, avalia a freira. “Como cristãos, seja religiosos ou leigos, devemos nos envolver cada vez mais em movimentos que busquem construir uma sociedade em que cada filho de Deus possa viver em condições dignas e tendo seus direitos respeitados”, conclui a religiosa.



No Recife o Grito dos Excluídos é organizado pelo Fórum Dom Hélder Câmara, que reúne militantes de diversas organizações e movimentos progressistas, muitos dos quais ligados a igrejas protestantes ou à igreja católica. O Fórum tem rotina de encontros semanais, normalmente na sede do Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), no bairro da Boa Vista. Uma das integrantes do Fórum Dom Hélder é a educadora popular Carolina dos Santos, moradora de Brasília Teimosa e membro da organização não-governamental (ONG) Turma do Flau. “Trabalhamos o ano inteiro com as crianças sobre seus direitos. E sempre trazemos elas para o Grito dos Excluídos, para que falem por si sobre o que vivem em seu dia a dia”, informa.

Militante do Levante Popular da Juventude e também membro do Fórum Dom Hélder, o estudante de direito Marcel Estevão destaca a importância do Grito enquanto ato unitário das forças populares e democráticas. “Diversas tendências e organizações da esquerda estão presentes. Organizações populares, movimentos sociais e sindicais e grupos religiosos. É disso que precisamos nesse momento: unidade”, avalia. “Através do golpe o cerco do inimigo vem aumentando. Se não tivermos unidade, se ficarmos dispersos, ele vai nos fragilizar ainda mais. O Grito vem para fortalecer essa unidade”, completa o estudante.



Para ele, o próprio Fórum Dom Hélder traduz essa unidade. “É um espaço aberto a quem tem identidade com o povo, para quem quiser fazer luta e trabalho de base, colocar a mão na massa, mobilizar e organizar gente”, afirma.

Questionado sobre o tema deste ano, “Por direitos e democracia a nossa luta é todo dia”, Estevão afirma que o objetivo foi relacionar a manifestação com o momento vivido pelo Brasil. “O golpe ataca a democracia, a Constituição Federal e se aprofunda através da redução de direitos, quando sabemos que direitos não devem ser reduzidos, mas ampliados”, coloca o estudante de direito.

Marcel resgata as principais medidas do governo Temer para justificar sua colocação. “A PEC do Teto de Gastos retira direitos, assim como a já aprovada Reforma Trabalhista. E a Reforma da Previdência, que está na agenda do governo golpista, ela também retira direitos. E o Grito deste ano denuncia isso. Ele propagandeia a luta por direitos e a defesa da democracia”. Já o educador Abdalaziz de Moura relaciona o tema com a vida de um de seus idealizadores. “É uma frase do poeta Júnior Silva, que é trabalhador rural. Ele está na luta há muito tempo e já percebeu que não faz sentido que a luta seja reduzida a momentos como esse de hoje. Ela tem de ser permanente, cotidiana”, conclui.

Edição: Monyse Ravenna