Corrupção

Análise | Lava Jato deu sobrevida ao "jeitinho brasileiro", um mito antinacional

Não faz o menor sentido tentar acabar com a corrupção e, ao mesmo tempo, considerá-la parte da gênese do país

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

,

Ouça a matéria:

Apreensão de dinheiro em imóvel que seria destinado a Geddel Vieira Lima (foto) reacendeu o debate sobre os limites do combate à corrupção / Agência Brasil

Desde o século 20, o Brasil vive à sombra de certos mitos, que só prejudicam a imagem do país. Em algumas conjunturas, esses mitos ficam escondidos, invisíveis. Mas, a qualquer momento, eles reaparecem com força e começam a ser repetidos como se fosse verdade absoluta.

Aquela história do “jeitinho brasileiro”, por exemplo, se ouve muito em rodas de conversa, em mesas de bar ou em pontos de ônibus. Quando o assunto é operação Lava Jato, várias discussões terminam com alguém dizendo que “o brasileiro é corrupto por natureza”, de que “o nosso país não tem jeito”, que “a culpa é do povo”.

Ou seja, a Lava Jato aprofundou o desemprego, prejudicou a população mais pobre do país, e de quebra recolocou sobre o povo a pecha da corrupção. Não existe contradição maior do que essa. Afinal, não faria sentido tentar acabar com a corrupção se ela fosse um elemento natural, parte da gênese do país. Aliás, a quem interessa esse mito?

Em primeiro lugar, interessa aos defensores do modelo econômico capitalista. Colocar a culpa no povo é aliviar a barra dos grandes empresários e políticos corruptos, que assaltam os cofres públicos e obrigam a população pobre a improvisar, “dar um jeitinho” de colocar comida na mesa. Isso é uma virtude, não um desvio ético.

A história do “jeitinho brasileiro” também interessa ao mercado estrangeiro, é claro. Mais especificamente, àqueles que planejam explorar a mão de obra ou os recursos naturais do Brasil.

Na Lava Jato, isso ficou evidente. Entre os alvos da operação, estão empresas alemãs, uruguaias, sul-coreanas… ou seja, não são só os brasileiros que pagam e recebem propina, ou que desviam dinheiro público. Mas, no senso comum, pouco importa.

O primeiro passo é entregar o petróleo, como se não fôssemos capazes de gerir essa riqueza com seriedade. Esse mito antinacional leva a crer que é preciso vender as empresas estatais, porque nas mãos de brasileiros elas sempre viram cabide de emprego. E assim a balela se reproduz, seguindo à risca a cartilha do imperialismo.

Como diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, é impossível acabar com a corrupção em uma sociedade cujo maior valor é o dinheiro. E ele não se refere só ao Brasil. Essa afirmação vale para todas as economias de mercado. É preciso fiscalizar, tornar mais rígidos os mecanismos de controle, mas sem a ilusão de extinguir a corrupção da noite para o dia.

Se não for assim, o Judiciário assume a lógica do “vale tudo”, se torna um poder absoluto, e todas as garantias constitucionais vão pelo ralo.

Edição: Radioagência BdF