Conservadorismo

MBL investe em polêmicas moralistas visando eleições, diz socióloga

Esther Solano acredita que os últimos posicionamentos do movimento contradizem sua origem liberal

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Estudantes da Unimep Piracicaba expõem obras censuradas pelo Santander Cultural, após boicote do Movimento Brasil Livre (MBL) / Mídia Ninja

As ações recentes do Movimento Brasil Livre (MBL), fundado em 2014 e baseados em valores liberais, são consideradas contraditórias e moralistas pela socióloga Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora de movimentos sociais.

Nas últimas semanas, o MBL tem protagonizado novas polêmicas. Uma delas é o caso do boicote à exposição Queermuseu, em Porto Alegre, que reunia obras de 85 artistas sobre a diversidade de gênero e questões LGBT. O Movimento também se posicionou a favor da liminar que permite que psicólogos ofereçam a chamada “cura gay”, que são pseudoterapias de reversão sexual para pacientes homossexuais.

Entrevistada pelo Brasil de Fato, Solano afirma que as atuais polêmicas fazem parte de uma estratégia maior, com o objetivo de ocupar um espaço político nas eleições de 2018.

Leia a entrevista completa: 

Quais são as contradições de um movimento liberal estar apelando para pautas consideradas moralistas, como o caso da exposição Queermuseu e da liminar que permite a cura gay?

É uma questão estratégica muito clara. O MBL na sua origem era um movimento liberal, essa ideia de apoio ao estado mínimo, às privatizações, mas a gente mede, inclusive nas nossas pesquisas, que no Brasil não há um consenso neoliberal, as pessoas não querem a reforma da previdência, a reforma trabalhista, não há um contexto que apoie o Estado mínimo no Brasil. 

Então, o MBL foi consciente disso, de que se seguisse expressando sua bandeira de estado liberal perderia possíveis adeptos. Teve uma época, quando a Reforma da Previdência ia entrar em pauta, eles inclusive receberam muitas críticas dos próprios seguidores na página do MBL, as pessoas não querem isso. 

Eles foram conscientes de que essa não poderia ser a bandeira se eles queriam aumentar o volume. Por isso, entraram nessa ideia da moralização das pautas, em duas questões na verdade, essa moralização das políticas, assuntos polêmicos, e também uma pauta mais punitiva, se aproximaram de movimentos mais punitivos, militaristas, ficaram mais próximos ao Bolsonaro, por exemplo. São duas áreas que eles sabem que criam uma adesão maior. É bem estratégico isso.

Então, você entende que, pelo MBL ter surgido em um contexto pós 2013 em que não havia uma direita tão definida, ele ainda está se definindo com seus valores?

Acho que a ideia principal é que, no Brasil, tem pouco espaço para uma direita neoliberal, econômica. Eles já viram que não há consenso sobre isso, diferentemente dos EUA e de outros países. No Brasil, as pessoas não querem o Estado mínimo, querem os serviços do Estado. Então, aqui no país tem muito pouco espaço para grupos neoliberais de fato, cuja bandeira seja neoliberal. Porém, há muito espaço para esses tipos de polêmicas LGBT, questão das mulheres e etc.

Então, o que eles estão fazendo é ver onde podem encaixar o discurso para ter mais representatividade e mais trânsito na sociedade. E acho que encontraram o nicho deles, que nós chamamos de sociologia das guerras culturais, ou seja, você não trata temas econômicos, mas morais e sociais porque isso vai te dar mais diálogo com a população.

E você acha que eles estarem se aproximando de temas morais também tem a ver com uma perda de confiança política depois que eles passaram a ser associados com o PSDB, com o Aécio Neves?

Eu acho que tem mais a ver, talvez, com o patamar de 2018. Eles vão tentar se candidatar e acho que, na verdade, tem mais a ver com eles quererem aumentar sua presença política. Então falta agora um ano para as eleições, mas o pensamento deles parece já pré-eleitoral, como podem aumentar sua popularidade, visibilidade, e aí, no momento de lançar candidatos, já são grupos visíveis. É isso do Escola Sem Partido, do Queermuseu agora, então estão pensando nessa perspectiva: aumentar a visibilidade deles como grupo para depois prepararem lideranças para entrarem na política em 2018.

Você acredita que essa tendência de pautas moralistas faz parte deste contexto em que nós temos um Congresso muito conservador, se aproximando da bancada evangélica, por exemplo?

Sim, totalmente. Porque é um momento onde as vertentes de viés conservador tem uma acolhida maior por parte das forças institucionais, partidos, bancadas etc. E a sociedade também está mais disposta a acolher esses discursos. Há um pensamento conservador, internacional também, que está se organizando. O contexto também é muito claro para isso, o MBL, de alguma forma, também sabe aproveitar essa conjuntura.

E pensando no MBL em si, analisando os valores que eles já defenderam e defendem nesse pouco tempo, você acredita que existe contradições?

Sim, eu acho que isso é importante, é uma contradição porque se você apoia de fato o Estado mínimo, você não pode apoiar a intervenção do estado em algumas áreas. Para mim é uma contradição apoiar o Estado mínimo e apoiar que o Estado tem que legislar o Escola sem Partido, que o Estado tem que proibir uma exposição de um museu. O Estado mínimo é justamente a ideia de que o Estado não deve interferir. Então, estrategicamente faz sentido, porque você ganha mais adeptos, mas ideologicamente não faz sentido.

Edição: Camila Salmazio