Fotografia

João Ripper: “Precisamos de pessoas que tenham um doce olhar sobre o povo”

As belezas da vida no semiárido pernambucano, registradas pelo fotógrafo, estão expostas no Murillo La Greca, no Recife

Brasil de Fato | Recife (PE)

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João Roberto Ripper, 64 anos, fotojornalista autodidata cujo trabalho tem sido dedicado a questões sociais / PH Reinaux

O Brasil de Fato Pernambuco entrevistou João Roberto Ripper, 64 anos, fotojornalista autodidata cujo trabalho tem sido dedicado a questões sociais, especialmente do campo brasileiro. Ripper é um dos fundadores, nos anos 1990, da agência Imagens da Terra, cobrindo durante 10 anos temáticas sociais Brasil afora.

Em 2004 fundou, junto ao Observatório das Favelas, o programa Imagens do Povo, agência-escola que funciona dentro do complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro. Durante 12 anos o Imagens do Povo capacitou moradores de favelas para o trabalho com fotografia aliado à percepção crítica e aos Direitos Humanos.

Seu recente trabalho no semiárido pernambucano, realizado em parceria com o Centro Agroecológico Sabiá, foi transformado na exposição “Uma deliciosa teimosia em ser feliz”, que segue até o próximo dia 15 de outubro no museu Murillo La Greca, bairro do Parnamirim, zona norte do Recife. As fotografias já passaram pelo Museu da Abolição e seguem, a partir do dia 19 de outubro, para o Sesc Triunfo, no Sertão do estado.

Brasil de Fato – Com frequência você critica o que chama de “história única”. O que exatamente é a história única?

João Ripper – História única é quando criam um estereótipo de determinadas populações, geralmente associadas à violência. Os alvos dessas “histórias únicas” são principalmente as populações menos favorecidas, incluindo aí os moradores de favelas, as populações tradicionais, os índios, quilombolas, agricultores sem-terra. Essas populações sempre aparecem como se fossem responsáveis pela violência, mas na grande maioria das vezes elas são vítimas da violência. E quando se passa muito tempo veiculando apenas informações de violência relacionadas a essas comunidades, todos os moradores acabam atingidos pelo estigma. A comunicação é utilizada para só informar a violência, ignorando as belezas estéticas e a beleza dos fazeres dessas comunidades.

Isso fere a dignidade das pessoas dessa comunidade. E faz com que as outras pessoas que recebem a informação acabem se distanciando dessa comunidade. Aquele grupo passa a não ser aceito pela sociedade, não consegue apoio e isso dificulta ainda mais o processo de luta por melhorias na condição de vida. Portanto, a criação das histórias únicas e dos estereótipos está ligada aos poderes, sejam governamentais, políticos ou econômicos. Esses poderes têm essa visão sobre as comunidades. Eles dominam o mercado da comunicação e difundem apenas as histórias únicas, retiram a beleza de populações e ignoram tudo de bom que se faz nas comunidades.

No atual cenário brasileiro, com o crescimento da violência contra essas comunidades, como a fotografia pode ajudar a romper as histórias únicas?

O papel da fotografia é se empenhar cada vez mais em mostrar as belezas que são ocultadas e denunciar tudo o que prejudica esses trabalhadores e as populações menos favorecidas, que são massacradas com ações do Estado brasileiro. Através de seu braço, o Estado tem promovido uma matança nas favelas, comunidades indígenas e quilombos, além de despejos de trabalhadores rurais. Não é só quem está no governo, mas quem detém o poder de modo geral, tem implementado o ódio contra essas populações.

E o nosso trabalho é ver com bons olhos as pessoas que fotografamos, levar essa boa imagem à sociedade. Temos que mostrar para a sociedade como aquelas pessoas são boas, mas que infelizmente estão sendo massacradas, tendo seus direitos usurpados. Precisamos dar uma resposta de resistência, mas também mostrar como são belas essas populações que são estereotipadas como violentas. Um documentarista não pode nunca perder a capacidade de se indignar com as injustiças, mas também não pode perder a capacidade de se maravilhar com a beleza da resistência e da vida das populações que temos aqui.

O que as pessoas encontram na exposição “Uma deliciosa teimosia em ser feliz”?

A exposição mostra a resistência de uma forma linda, dedicada à vida dos trabalhadores da região do semiárido, da caatinga brasileira, em especial do Sertão de Pernambuco. São trabalhadores que mostram que é possível conviver com o semiárido. Que em vez de discutirem o “fim da seca”, que é um fenômeno natural, querem mesmo é se preparar para quando a chuva vier, para poderem encher seus reservatórios. São pessoas que têm essa deliciosa teimosia de ser feliz.

O que você diria ao leitor que reside em subúrbio ou comunidade rural e que sonha tornar-se fotógrafo?

Que tenha muita vontade. Vá atrás de seus sonhos. Busque se formar com as experiências que já estão acontecendo, para que aprenda mais de fotografia. Sobre o equipamento: se juntando a outros, dá para pensar em adquirir câmeras – que não precisam ser fantásticas. O importante é ter conhecimento, muita vontade e um olhar de bem para essas populações esquecidas e criminalizadas. A gente precisa de pessoas que tenham um doce olhar sobre o nosso povo. Se você tem esse olhar, mergulha no teu sonho, se junta a quem já está fazendo e você verá que pode fotografar bem, com máquinas simples ou celulares.

Edição: Monyse Ravena