GASTRONOMIA

Tio Beto Sorvetes em novo endereço na Zona Norte do Recife

Tradicional estabelecimento voltou para local em que funcionou de 1975 a 2002, preservando sabor de 70 anos

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Max Pina tem continuado a tradição de sua família na produção de sorvetes artesanais / Vinícius Sobreira/Brasil de Fato

Desde a manhã da última sexta-feira (6 de outubro) um antigo conhecido retornou à rua Dona Ana Xavier, no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife. Após 15 anos, Tio Beto - agora Tio Beto Sorvetes Artesanais - está de volta ao térreo do edifício Horasalda, local que ocupou de 1975 a 2002, vendendo sorvetes artesanais com o sabor das frutas e mantendo viva uma tradição que teve início há mais de 70 anos.

Nos últimos 15 anos a sorveteria funcionou no condomínio Parque Dom Luiz, também em Casa Amarela. O retorno ao antigo endereço é a realização de um sonho para o sorveteiro Max Pina, filho do fundador e autor das receitas Humberto Pina, o Tio Beto. “Desde os anos 2000 eu sonhava em voltar para cá. Sempre que passava por aqui, dizia que voltaria. E a fé ajudou a materializar esse sonho. Conseguimos alugar e trazer de volta a sorveteria”, comemora Max.

Pina afirma ainda que a decisão de retornar à “descida do Bompreço”, no centro do bairro, é uma forma de manter vivo o legado do pai e o que ele representa para a história do doce no estado. “Eu quis resgatar a história dos sorvetes artesanais. Eu não poderia deixar isso morrer. E a história do sorvete de Tio Beto é feita em Casa Amarela”, avalia.

Segundo Max, outras sorveterias maiores surgiram através dos ensinamentos de seu pai. “A Frisabor, de Seu José de Matos [falecido em 2013], foi uma das que surgiram por pessoas que aprenderam com meu pai”, afirma. Mas Pina diz não ter interesse em passar pelo processo de industrialização. “Fazer em grande escala é interessante para quem quer crescer. Mas não queremos esse modelo. Preferimos o natural”, coloca.

Tradição

Na década de 1940 o sergipano Humberto Pina chegou ao Recife e, em suas idas ao porto para trocar experiências e curiosidades com viajantes, aprendeu a técnica de refrigeração e fabricação de sorvete. Pouco depois fundou a Sorveteria Bacana, na rua Gervásio Pires, bairro da Boa Vista, onde permaneceu por décadas e acabou por vender o nome da sorveteria.

Em 1975 o empreendedor comprou a sorveteria Pinguim, de propriedade de sua filha, já na rua Dona Ana Xavier, mesmo endereço para onde acaba de voltar. Humberto Pina mudou o nome daquele estabelecimento para Tio Beto Sorvetes. E marcaria gerações com seu doce artesanal e sabor natural da fruta. “Ele quis que o sorvete fosse fiel ao ingrediente. E desde cedo aprendemos a acompanhar o processo: ir à feira, escolher as frutas e produzir de modo natural”, lembra o filho.

Em casa, faziam juntos o trabalho de descarte e limpeza dos frutos, a maturação do leite, pasteurização e conservação. A família também mantém uma tabela com a época de colheita das frutas, para garantir mais sabor. “Eu mesmo vou às feiras. Algumas frutas tenho fornecedores de confiança, porque saber de onde vem cada fruta é importante. Nos preocupamos com a higiene, para não prejudicar a saúde do cliente”, diz Max. E até a casquinha do sorvete é feita de modo artesanal.

Humberto Pina faleceu em 2000. A Tio Beto Sorvetes seguiu na  descida do Bompreço até 2002, quando foi transferida para o condomínio em que reside a família, no mesmo bairro. “A ida para o condomínio teve perdas. Algumas pessoas até hoje, desde 2002, não sabem que a gente estava lá”, afirma o herdeiro de Tio Beto.

A transferência para o condomínio também trouxe a mudança no nome: a sorveteria passou a se chamar Dona Maria, em referência à esposa de Humberto Pina, Maria Aurora. Max conta que nesses 15 anos conseguiram recuperar alguns clientes. “Teve gente que depois de muito tempo foi experimentar o sorvete de Dona Maria e, quando provavam, se surpreendiam. Diziam que tinha o mesmo gosto do sorvete de Tio Beto”, recorda aos risos.

Posteriormente eles mudaram o nome para Sorvetes Artesanais, que permaneceu até a última quinta-feira (5), ainda no condomínio. E, desde a sexta-feira (6), já de volta à rua Dona Ana Xavier, a sorveteria se chama Tio Beto Sorvetes Artesanais.

Se por um lado alguns clientes se perderam nas mudanças de endereço e nome, muitos outros descobriram o gosto das receitas preservadas desde 1940. E voltar ao antigo local, além de manter os atuais clientes e alcançar novos, é também uma tentativa de resgatar os clientes que não tomam o sorvete há 15 anos. “Queremos encontrar os clientes que eram namorados e que hoje estão casados, com filhos. Entre os nossos clientes temos netos e até bisnetos daqueles casais que namoravam na Sorveteria Bacana, na Gervásio Pires. Isso é gratificante”, comemora Pina.

Sabor

Para ele, o segredo para manter os clientes é preservar o sabor. “A preservação do sabor natural da fruta é importante. O cliente sabe que está tomando o verdadeiro sorvete da fruta. Além de que faz bem a saúde. É alimento”, diz Max. “Fazemos o sorvete com amor, carinho e respeito com as pessoas que estão tomando”.

Desde os anos 1940, Humberto Pina se desafiou a inventar receitas, das quais muitas caíram no gosto da clientela e fazem sucesso até hoje. E, segundo o filho Max, os clientes podem se surpreender ao encontrarem, no novo endereço, sabores que estavam guardados num caderninho de anotações de décadas atrás. “Estamos fazendo essas novas receitas que não chegaram a ser comercializadas. Vamos soltá-las aos poucos”, informa.

Serviço:

Tio Beto Sorvetes Artesanais;

Rua Dona Ana Xavier, Casa Amarela, Recife;

Horário de funcionamento:

Segunda a sábado, das 10h às 22h, e domingos das 12h às 22h.

Edição: Monyse Ravena