Entrevista

Para Trajano, prisão de dirigentes não impacta no combate à corrupção no esporte

Em entrevista, jornalista critica atuação do Ministério de Esportes e falta de iniciativa de esportistas

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Para o jornalista José Trajano, atletas não falam nada sobre corrupção: "São um bando de alienados", afirmou. / Agência Brasil

A saída de Carlos Arthur Nuzman, que renunciou à presidência do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) nesta quarta-feira (11), não altera em nada no funcionamento da entidade. A avaliação é do jornalista esportivo José Trajano, que considera o problema da corrupção nas organizações esportivas como estrutural: "O esporte brasileiro sempre foi, em termos políticos, muito mal tratado".

Trajano conversou com o Brasil de Fato e falou da influência da Rede Globo de Televisão no mundo esportivo. Confira a entrevista:

A prisão de Nuzman é mais um episódio envolvendo dirigentes esportivos em caso de corrupção, como Ricardo Teixeira e José Maria Marin. O que estes casos dizem sobre o funcionamento dessas organizações no Brasil? 

Nada mudou com o desaparecimento e acusações em torno de Ricardo Teixeira. O nome dele ficou sujo, depois entrou o Marin, tão sujo quanto, depois o Marco Polo Del Nero, que também não pode sair do Brasil… Ou seja, a CBF continua sendo gerida por outros nomes. E não é aquilo que quem gosta de futebol, que os jogadores, imprensa e torcedores imaginavam.

No COB, onde o Nuzman imperou durante vinte e tantos anos, a saída dele e de Leonardo Gryner, também parece que não altera nada. Muda o nome apenas. Os que elegeram o Nuzman para presidente do COB estão lá também tantos anos quanto ele. Tirando uma ou outra confederação, a maior parte delas são dirigidas por sujeitos que estão lá há trinta, vinte anos e são coniventes com a administração Nuzman.

Quer dizer, o fato de ter sido preso um, o outro ter sido afastado não representa um grande feito. Pode ter um efeito moral, mas o efeito prático, de que o esporte brasileiro vai mudar, passar por uma outra fase, eu sou muito pessimista.

E que iniciativas práticas estão sendo pensadas para combater a corrupção nas entidades? 

No futebol, os atletas não falam nada. São um bando de alienados. Teve a tentativa do Bom Senso [Futebol Clube], mas que ficou restrita a ex-jogadores. Nos esportes olímpicos, poucos atletas se manifestam. Os atletas em atividade têm medo de perder patrocínio, de serem perseguidos pelas federações ou confederações. 

Na imprensa, tem pouca gente que batalha para que isso mude e que apontam o dedo nas feridas. Lúcio de Castro, Jamil Chade, Juca Kfouri, Roberto Salim, Gabi Moreira, Mauro César Pereira… e mais um ou outro. Mas, dentro do universo do jornalismo esportivo, são poucas pessoas. Então, a situação é muito complexa. 

E outra coisa: quando a gente fala de COB e da CBF, existe um negócio chamado Ministério do Esporte, que toma conta do esporte sob outro ponto de vista: distribuindo verbas, nomeando pessoas, ditando normas para o esporte brasileiro. Ele [o ministério] sempre foi contemplado com o que a gente tinha de pior. 

Como você enxerga a atuação da pasta neste contexto de corrupção?

O esporte brasileiro sempre foi, em termos políticos, muito mal tratado. Até nos governos em que eu acreditava e acredito, o Ministério do Esporte sempre foi maltratado quanto a distribuição de verbas e cargos.

Tivemos desde Rafael Greca, que hoje é prefeito de Curitiba, a pastor evangélicos… Já tivemos de tudo. Agora, [a pasta] está nas mãos de [Leonardo] Picciani, que é o manda-chuva no Rio de Janeiro, foi presidente da Assembleia e sempre esteve ligado ao Sérgio Cabral. Um cargo que deveria estar nas mãos de gente que pensa o esporte, que tem planos e projetos. Mas não, fica no âmbito político. Então, as verdadeiras prioridades do esporte ficam em segundo, terceiro plano. 

O Brasil sediou jogos mundiais militares, Panamericano, Olimpíadas e Copa do Mundo em uma sequência. Eu acho que poucos países no mundo tiveram essa oportunidade de sediar tantos eventos importantes. E o esporte não lucrou com nada. Não houve legado esportivo nenhum. Houve ganância dos dirigentes, mal planejamento, tudo de errado. E isso tudo a gente falou antes e durante. Famílias perderam suas habitações perto da Vila Olímpica, houve um exagero na construção dos estádios. Muita gente se deu bem, em termos de dinheiro. As construtoras, principalmente.

Leonardo Gryner, que foi preso junto com Nuzman, foi ex-diretor de esporte da Rede Globo. O que podemos analisar da perspectiva da mídia com relação aos casos de corrupção?

É o jogo do capitalismo, né. Uma coisa que acontece no mundo inteiro. O campeonato inglês também é vendido a um preço estratosférico. Aqui no Brasil, como a Globo é toda poderosa, ela já detém os direitos do campeonato principal de futebol há muitos anos. Ela também funciona como um banco, que dá empréstimos, tem times pendurados no campeonato de 2020 com dinheiro antecipado. É como se fosse um banco. E todo mundo fala, mas todo mundo beija na mão da Globo. Os clubes, as federações, a CBF. E muita gente deve ganhar em cima destas ações milionárias. 

Isso em relação a Globo. Mas também tem a Traffic, do J. Havilla, que está nos EUA e não pode sair de lá, que também vendia jogos da seleção brasileira em comum acordo com a CBF. 

É difícil acontecer no Brasil o que ocorreu na Argentina, onde o governo fez uma intervenção e todos passaram a ter direitos de transmitir os jogos, a TV pública poderia passar porque os clubes não aceitariam, as federações não aceitariam e a CBF também não. Então, a Globo tem um poder muito grande e tirar esse poder da globo eu acho praticamente impossível porque é muito dinheiro e muito poder… É o capitalismo em seu grande momento. Quem dá mais leva, e os pequenos param aí.

E qual o papel das multinacionais nestes episódios?

Quem banca o esporte brasileiro e bancou nestes últimos anos não foram as multinacionais, foram as empresas estatais. Essas empresas despejaram muito dinheiro no esporte porque sabiam que tinha o pan-americano e Olimpíadas. Então, as outras empresas geralmente patrocinavam mais transmissões de futebol, olimpíadas comprando cotas. 

Um ou outro tinha um projeto esportivo que protegiam alguns atletas. Mas o grosso do dinheiro colocado no esporte brasileiro não foi de multinacional, mas da Petrobras, Caixa Econômica, Banco do Brasil e Correios para levantar o esporte brasileiro focando no alto rendimento — que foi um erro pois deveria ter sido colocado dinheiro também no esporte educacional. 

Essas grandes empresas estão muito mais ligadas às grandes organizações: Fifa, CBF e aos atletas. Ao esporte propriamente dito não. 

As estatais estão passando por um período de desmonte e redução de custos. Qual é o impacto para o esporte?

Vai ter um impacto muito grande. Por exemplo, há pouco tempo atrás, o COB deixou de pagar seguro saúde dos atletas. O Ministério do esporte disse que vai diminuir a bolsa atleta. Algumas confederações que recebiam dinheiro destas empresas já disseram que não vão manter o calendário, diminuíram o número de competições, de viagens internacionais porque o dinheiro que vem das estatais já diminuiu muito. Nós temos um esporte incrível e, logo depois de ter sediado vários eventos, não sobrou nada. 

Edição: Mauro Ramos