Consequências

Aldo Rebelo e Beluzzo: Lava Jato comprometeu indústria e política

Ex-ministro considera falsa a divisão entre esquerda, direito e centro: "País sempre teve grandes frentes heterogêneas"

Empresas foram conquista geopolítica e ideia de que o país precisa encolher é "inacreditável" / Divulgação

A recuperação do país passa pela retomada da indústria, comprometida por gestões econômicas e, mais recentemente, por decisões da Operação Lava Jato, segundo avaliação do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que participou de debate na tarde desta segunda-feira (23) na sede do Dieese, em São Paulo. O ex-deputado Aldo Rebelo, sem citar nomes, mencionou a existência de instituições que "confundem a missão de combater a corrupção com a substituição da política" e lamentou a perda de patrimônio, físico e de inteligência, provocada sob pretexto – legítimo – de combate à corrupção. "A presença de nossas grandes empresas no mundo foi uma conquista geopolítica." Ambos consideram fundamental uma união de forças em torno de programa de desenvolvimento que contemple a indústria nacional.

Belluzzo lamentou a "visão inacreditável", presente hoje, segundo ele, de que "o Brasil precisa encolher para melhorar". "Quem é que fala que precisa de um projeto de desenvolvimento? Virou crime falar disso", afirmou. Segundo ele, o país está em uma "armadilha ideológica", da qual não sairá com "arengas" de economistas, mas com um bloco político capaz de conduzir essa agenda, que inclua investimentos em infraestrutura. "É o gasto que determina renda. Não existe uma renda pré-existente."

Em relação ao processo eleitoral de 2018, ele manifestou preocupação com uma possível divisão entre candidatos que se identifiquem com esse projeto. "Gostaria muito que houvesse uma convergência. Se perdermos essa oportunidade, só daqui a quatro anos." Segundo ele, a China executou um projeto nacional de desenvolvimento se aproveitando da globalização. "Vê se tem capital especulativo entrando lá."

Na visão do economista e professor, a Operação Lava Jato errou ao punir empresas em vez de pessoas, paralisando, por exemplo, o setor de construção pesada e atingindo setores que expandiam atividades para fora do país. "Isso é uma regressão inacreditável", disse. Mas a indústria enfrenta problemas há mais tempo, observou, considerando o Plano Real (1994) eficiente no combate à inflação, mas causador de desindustrialização ao manter o câmbio valorizado. 

Belluzzo também criticou o sistema financeiro ("Não é só inútil, é danoso") e a ex-presidenta Dilma Rousseff, por ter aceitado "a pressão do mercado" após vencer as eleições. Chamou a "reforma" trabalhista de Michel Temer de "atraso", assim como a emenda que limita gastos públicos – cuja aplicação considera inviável na prática. Uma possível recuperação, diz ele, nada terá de "gloriosa ou brilhante": "Vai ser meia-boca".

O economista afirmou que o país pagou R$ 510 bilhões em juros da dívida só no ano passado. "Aí o pessoal fica falando de déficit da Previdência", emendou. E chamou de "gente insana" os defensores da privatização de empresas estratégicas, como Petrobras e Eletrobras, lembrando do governo Fernando Henrique Cardoso, durante o qual, afirmou, o país arrecadou R$ 170 bilhões com as privatizações. "Onde é que foi parar? Foi tudo engolido pelos juros."

Falsa polarização

Rebelo questionou o que chamou de contraponto entre Estado e mercado, que representaria um confronto artificial, já que há áreas onde um e outro são necessários. "O chinês não caiu nessa armadilha."

Em um momento em que o país vive "desorientação, falsa polarização", com avanços de interesses minoritários e "até antinacionais", como definiu, o ex-ministro e ex-presidente da Câmara afirmou que é preciso "unir amplas forças políticas, econômicas e sociais para retomar o caminho do desenvolvimento e dos direitos". "Não tem solução para nada sem o desenvolvimento da economia. O problema é que essa palavra, essa agenda, desapareceu do debate." Segundo ele, "gente que vive da especulação pauta a agenda do país".

Ministro da Defesa no governo Dilma, ele acredita que falta uma melhor compreensão das Forças Armadas na estratégia nacional. E destacou que, enquanto a fronteira entre Estados Unidos e México tem 3 mil quilômetros de extensão, apenas a fronteira entre Brasil e Bolívia tem 3.400 quilômetros. Rebelo também considera falsa a divisão entre esquerda, direita e centro. "O Brasil sempre foi um país de frentes heterogêneas."

Recentemente filiado ao PSB, depois de 40 anos no PCdoB, Rebelo afirmou que a relação com o ex-partido é "tranquila". "Os vínculos permanecem", comentou, dizendo que as duas legendas têm "laços profundos e antigos". Autor de um "manifesto pela união nacional", ele evitou falar de processo eleitoral e dos cenários para 2018.

Portal e revista

O evento no Dieese marcou o lançamento do portal Rádio Peão Brasil, que será mantido por quatro centrais (Força Sindical, UGT, CSB e Nova Central), com foco no noticiário sobre economia e política, com visão dos trabalhadores. Também foi lançada hoje uma revista sobre a greve geral de 1917, elaborada pelo Centro de Memória Sindical.

Edição: RBA