Votação

'Vitória de Temer é matemática, na política sai derrotado', diz líder da oposição

Deputado José Guimarães (PT) vê resultado da votação como sinal pouco favorável para governo aprovar medidas polêmicas

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Temer, que já chegou a contabilizar cerca de 400 votos em outras disputas, obteve os votos de menos da metade do plenário da Câmara na segun / Lula Marques/Agência Brasil

A votação da segunda denúncia contra o presidente golpista Michel Temer (PMDB) no plenário da Câmara dos Deputados, que terminou com um placar de 251 a 233, trouxe à tona a perda de capital político por parte do governo. Essa é a principal leitura dos membros da oposição, que já se articulam para tentar impedir a aprovação de novas pautas conservadoras, como, por exemplo, a reforma da Previdência.

Para o líder da minoria na Casa, José Guimarães (PT-CE), o resultado da votação demonstra que o Planalto, que já chegou a contabilizar cerca de 400 votos em outras disputas, terá maiores dificuldades pela frente. "É uma vitória matemática, mas, do ponto de vista político, o governo sai derrotado. E o Brasil sai triste também, porque não tem perspectiva. O governo hoje é um caminhão com os quatro pneus furados. Diante disso, nós vamos continuar nossa luta por nenhum direito a menos", disse o líder.

A despeito das previsões dos opositores, após a votação, membros da base aliada se mostraram otimistas diante das próximas etapas. A Câmara deve priorizar, a partir de agora, uma agenda mais voltada para o receituário neoliberal, com destaque para a aprovação de novas regras para os setores elétrico e de mineração, ambos na mira do capital estrangeiro.

Na boca dos aliados, a vitória deve ocorrer sem maiores dificuldades. Mas, para o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ), o cenário não será tão favorável à base. "É um otimismo que não combina com o resultado dessa quarta-feira (25) na Casa e nem com os dos últimos meses. Não está tudo bem. A Câmara não conseguiu produzir maioria absoluta pra eles. Isso mostra que este é um governo moribundo, que só está esperando o fim do mandato pra entregar a chave do Planalto", avalia o oposicionista.

Matemática

Para a reforma da Previdência, por exemplo, que é considerada a pauta mais impopular do Planalto, Temer precisaria de 308 votos, o equivalente a três quintos do total da Casa. O número é de quase 60 votos a mais do que foi obtido na votação da denúncia. A equação sinaliza um terreno árido para o governo e pouco favorável à aprovação de medidas mais polêmicas.

Na primeira denúncia, em agosto, Temer angariou 263 votos contra 227 da oposição. A vantagem no placar anterior foi de 12 votos a mais para o Planalto em relação à segunda. Os votos atuais representam menos da metade do plenário.

A comparação entre as duas votações também mostra a diferença entre os deputados que se ausentaram: em agosto, foram 18, enquanto desta vez foram 25. O número sinaliza que menos parlamentares se dispuseram a colocar a digital no painel a favor de Temer.

O resultado se insere não só no contexto de enfraquecimento do governo, afundado em escândalos de corrupção, mas também na lógica eleitoral: 2018 já se anuncia na arena política e a manutenção do apoio ao Planalto pode custar caro nas urnas.

Diante disso, uma nova configuração de forças vai se revelando: com o emagrecimento da base aliada, a oposição se fortalece, consagrando, ainda que timidamente, a estratégia unitária que reúne partidos como PT, PCdoB, Psol, Rede, PDT e PSB.

Ao bloco se soma ainda o apoio de deputados dissidentes dentro da tropa de choque do Planalto. É o caso de parte do PSDB, que rendeu 23 votos contrários a Temer de um total de 43 votantes – três estiveram ausentes. No entanto, no que se refere especialmente às pautas neoliberais, por exemplo, os tucanos têm sintonia com o governo. O PSDB é a terceira maior bancada partidária da Casa e ainda pode fazer a diferença nas disputas.

"Isso de votar contra o governo é jogo de cena deles, inclusive porque este já é o segundo relator designado pelo PSDB que dá um aval pró-Temer, e o partido não estabelece qualquer tipo de punição. Pra mim, está claro que eles fizeram um acordo: o PMDB salva Aécio no Senado e o PSDB salva Temer na Câmara. É preciso ficarmos atentos", pontua Glauber Braga (RJ), líder do PSOL na Câmara.

Edição: Camila Salmazio