Meio ambiente

Perfil | Do verde ao cinza no Parque Bom Retiro, em Curitiba

Área preservada de quase 60 mil metros quadrados está sob risco de ser sufocada por mais um hipermercado

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Da área total do parque, pelo menos metade será ocupada pela rede Angeloni / Vino Fotografia

Uma das maiores áreas verdes preservadas de Curitiba está prestes a se tornar cinzas. Com 60 mil metros quadrados, dois córregos, três nascentes e um grande bosque que funciona como corredor biológico para animais silvestres, o parque Bom Retiro está ameaçado pelo projeto de construção de um hipermercado. É com um sentimento descrito como “indignação” que moradores de diversos bairros, junto ao coletivo A Causa Mais Bonita da Cidade, têm se manifestado por meio de abaixo-assinados, pedaladas e divulgações na internet.

“Essa obra fere qualquer bom senso, em sentido ambiental, cultural, histórico e urbanístico”, define o pedagogo Luca Rischbieter, que faz parte do coletivo. Da área total do parque, pelo menos metade será ocupada pela rede Angeloni – ainda que já haja um hipermercado construído e em funcionamento a 600 metros de distância do local. “Essa área surgiu com fins filantrópicos e poderia receber uma proposta de urbanismo inteligente, que beneficiasse nossa cidade”, define o pedagogo. Ele assinala, ainda, as consequências para a população a cada vez que um hipermercado se instala novamente. “As padarias, mercadinhos e o comércio local saem prejudicados em detrimento do varejo. Sem falar no meio ambiente. Com esse projeto, não será possível preservar as florestas, nascentes e lençol freático do parque”, ressalta Rischbieter.

O pedagogo afirma que, mesmo dentro da legislação municipal, a obra é irregular: “A lei de o zoneamento da cidade permitiria no máximo cinco mil quilômetros quadrados de área ocupada, e eles conseguiram 30 mil. Isso não sobrevive sequer a uma análise de impacto urbano”.

História mal contada

Em 2012, a súbita demolição do Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, que funcionava no mesmo local onde deve surgir o novo Angeloni, surpreendeu os curitibanos. Imediatamente, moradores organizaram um abaixo-assinado pela criação de um parque no local. A Federação Espírita, antiga proprietária do imóvel, vendeu o terreno a uma empresa de empreendimentos imobiliários.

Uma fonte ligada ao coletivo, que preferiu não se identificar, explicou que os recursos para a construção do hospital foram reunidos a partir de doações – sobretudo de uma grande quantia transferida pelo célebre empresário espírita Lins de Vasconcellos. “Suspeitando da demolição, a partir do vazamento de informações, os moradores tentaram impedir o processo na época com um pedido de tombamento do parque como patrimônio da cidade. O pedido foi recusado pela prefeitura, e dois dias depois o hospital foi demolido”, lembra-se o entrevistado. Ele também ressalta que o caso envolve uma série de irregularidades financeiras.

Da época, há registros em fotografias de prontuários expostos, em crime contra a privacidade dos pacientes, e outras ilegalidades decorrentes da iniciativa repentina. “Só a demolição do hospital já havia chocado muita gente. Tinham tanta pressa em derrubar que pareciam saber que o que faziam era muito errado”, comenta Rischbieter.

Causa coletiva

O coletivo “A causa mais bonita da cidade” surgiu no Facebook e logo ganhou milhares de adeptos. Os mais engajados se dividiram em frentes de atuação – jurídica, urbanística, ambiental e outras – para acompanhar o processo e garantir que a ganância não atropele a prudência. “Estamos fazendo o que a Prefeitura devia fazer, se trabalhasse pela cidade. Usamos do nosso tempo para organizar o local e propor alternativas para utilizá-lo da melhor forma possível”, defende o pedagogo. Todas as propostas apresentadas têm foco na preservação integral da área. O coletivo também solicitou o tombamento da área como patrimônio cultural para impedir a construção do hipermercado.

A adesão à causa cresce a cada dia em toda a cidade. “Não podemos mais sufocar o urbanismo com hipermercados, carros, shopping centers. Isso vem sufocar nossa história, meio ambiente, cultura, memória e paisagem”, conclui Luca Rischbieter.

Edição: Ednubia Ghisi