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Coluna | Os tons e os batons das Nymphas

O trabalho mais recente do grupo é o disco “Brejeiro”, lançado em 2016

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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O grupo de mulheres enfrentou outros temas sociais em suas músicas, além da questão feminina / Divulgação

Mulheres. Mulheres jovens. Há cerca de quarenta anos um grupo de mulheres jovens floresce no cenário musical de Curitiba. Era a década de 1970, a ditadura ainda vigia, as mulheres tinham de lutar ainda mais por sua liberdade e nossa Curitiba não era menos conservadora do que é hoje.

Elas tinham entre 13 e 20 anos. Mesmo sem estrutura profissional para as orientar, lotaram o Teatro Universitário de Curitiba (TUC) em 1978 e, inusitadamente, a fama se espalhou. Curitiba tinha, a partir de então, um grupo vocal feminino.

Seus primeiros discos foram gravados entre 1980 e 1984. Primavam pela gravação de músicas autorais e de compositores paranaenses – uma raridade, digna de nota, para a 5º Comarca de São Paulo.

No terceiro LP, de 1984, intitulado “Tons e batons”, uma temática sai das entrelinhas: a poética feminina. Na canção “Tchau mesmo”, Mara Fontoura – a principal compositora do grupo – fez o que era pressuposto se tornar exposto: “Eu já cansei de fritar bife, passar roupa/ Varrer casa e viver presa nessa escravidão/ Pra você vir de noite reclamando, me xingando/ E inda por cima me fazer de colchão/ Eu não!” Na história, a mulher vai embora, arranja emprego e ainda vai trabalhar de cantora numa boate. E tchau!

Por essa, a tradicional Curitiba não esperava. A única coisa tradicional da música foi emendá-la com um chorinho como “Tico-tico no fubá” acompanhado pelo histórico cavaquinista da cidade, Janguito do Rosário.

Carmen, Cristina, Juliana, Mara, Miram, Rosa Lídia, Rosa Maria e Soraya (última formação do grupo) enfrentaram outros temas sociais em suas músicas, além da questão feminina. Inevitável em um contexto de tantas desigualdades como o nosso.

Como elas dizem, artistas são instrumentos da verdade. Às vezes, um instrumento usado com mais intuição; outras, com mais intencionalidade. Mas, via de regra, desvalorizado (à exceção, é óbvio, dos que caem nos braços da megaindústria cultural).

Hoje, em tempos de conservadorismo exacerbado, ataque às árduas conquistas das mulheres e incompreensão do papel da arte, lembrar do Grupo Nymphas é mais que um alento, é uma necessidade.

Para ficar por dentro:

Livro “Grupo Nymphas, 30 anos: cantologia”, de Mara Fontoura (2006).

Edição: Ednubia Ghisi