LITERATURA

O que tu indica? | 10 dias que abalaram o mundo

Nascido 30 anos antes da revolução de 1917, John Reed se tornaria o principal cronista daqueles acontecimentos

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O livro não se destaca por retratar as personalidades da revolução e ou pela descrição da guerra, mas por retratar o espírito do povo russo / L&PM/divulgação

“O velho operário tinha uma das mãos no volante e com a outra indicava-me alegremente a Capital, que refulgia ao longe.

- És minha! – gritou com o semblante iluminado. – agora és minha. Petrogrado!”

John Reed


Pela própria tarefa a que se propõe, o Brasil de Fato não poderia prestar sua homenagem aos cem anos da Revolução Russa, sem homenagear também um dos jornalistas mais comprometidos com a classe trabalhadora em toda a história. Nascido 30 anos antes da revolução de 1917, John Reed se tornaria o principal cronista daqueles acontecimentos. Seu trabalho jornalístico é inseparável de seu engajamento militante. Diria ele que se tornou jornalista por buscar a verdade, mas tornou-se comunista por vivê-la.

Quando os revolucionários depuseram o Czar em fevereiro de 1917, Reed já era um ativo membro do Partido Social Democrata nos Estados Unidos. Ele aproveitou então a tarefa de cobertura da 1ª Guerra Mundial para ir acompanhar os acontecimentos em solo russo. O resultado foi o livro “10 dias que abalaram o mundo”, melhor relato da Revolução Russa na opinião de seu principal dirigente: o próprio Vladimir Lênin indicaria, anos depois, o relato de Reed como o mais fiel e compromissado com a verdade. Não se trata, obviamente, de um relato de 10 dias, mas do período entre a queda da monarquia absolutista à queda do governo provisório de Kerensky.

O livro de Reed não se destaca por retratar as personalidades da revolução, embora elas apareçam. Também não se destaca pela descrição da guerra. Seu livro se destaca, antes de tudo, pela capacidade de retratar o espírito do povo russo encarnando os povos de todo o mundo. Suas linhas parecem absorver as sensações e a mudança vivida pelas massas ao se envolverem com sua revolução: os soldados do exército inimigo que depunham armas, a militância de base que aprendia a teoria com o envolvimento prático, as operárias, os motoristas de caminhão, a multidão em marcha para enterrar seus mortos. Por tudo isso segue sendo uma das leituras mais marcantes na vida de gerações e gerações de lutadores e lutadoras em todo o mundo.

*Eduardo Mara é sociólogo e militante da Consulta Popular

Edição: Catarina de Angola