Consciência negra

Especial 20 de novembro | Dados confirmam desigualdade entre negros e brancos no PR

Novembro é o mês em que se relembra a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência à escravidão no Brasil

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Ao mesmo tempo em que tem menos renda que as pessoas brancas, os negros também são as maiores vítimas da violência policia / Arquivo pessoal Juliana Lino

Qual o mês da consciência negra? Deveriam ser todos. Porém, é em novembro que se relembra a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência à escravidão. Cinco estados e cerca de mil municípios brasileiros param as atividades no dia 20, em homenagem à luta da população negra - no Paraná, Guarapuava é a única cidade a decretar feriado na data. 

Durante todo o mês, o Brasil de Fato Paraná vai publicar reportagens, análises e depoimentos sobre o tema. Uma pequena contribuição, que buscamos replicar nos demais meses do ano. Nada mais do que a obrigação de um veículo de comunicação popular e democrático, em um país com tamanha diversidade de cores, sons, culturas… e uma dívida de quatro séculos a ser quitada com o povo negro.  

Segundo a classificação do IBGE, negros, negras, pardos e pardas são 19,7% da população de Curitiba, mas representam 48,5% da população em situação de rua. Na Câmara Municipal, são apenas 7,9%. 

No Paraná, cerca de 28,5% dos paranaenses se autodeclaram negros, negras, pardas ou pardos e são quase a metade das pessoas mortas em confronto com a polícia.

Em tempos de avanço do discurso do fascismo e da segregação racial, é urgente lutar pelo óbvio: que todas e todos tenham acesso aos mesmos direitos e às mesmas oportunidades, e que uma cultura não se sobreponha à outra, nem a torne invisível.

Que a vida, enfim, não seja determinada pela cor da pele.

 

Dados confirmam desigualdade entre negros e brancos no PR

Apesar de mais da metade dos habitantes do país ser negra – 54% da população, segundo o IBGE – são os brancos que ocupam as maiores parcelas nos índices econômicos e sociais. Nos últimos anos, houve importantes avanços que diminuíram as diferenças em diferentes áreas. Segundo dados do IBGE, o percentual de negros no nível superior mais que dobrou entre 2005 e 2015.

(Arte: Vanda Moraes)

Programas sociais como o Programa Universidade para todos (Prouni) e a política de inclusão racial que destina parte das vagas dos vestibulares para negros contribuíram para esse resultado. Mesmo assim, ainda há muito a avançar: apenas 12,5% das pessoas negras cursam alguma faculdade, enquanto 26,5% dos brancos chegam ao nível superior.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com a Fundação João Pinheiro (FJP) o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgado em maio deste ano, aponta que a renda familiar média das pessoas negras é menos do que a metade da renda de pessoas brancas. Enquanto os brancos têm um índice de R$ 1.097,00 por pessoa, a renda de negros é estimada em R$ 508,90.

Durante todo o mês de novembro, você poderá conferir conteúdos especiais que denunciam aspectos que acentuam essa desigualdade ou que destacam a importância da população negra no desenvolvimento do estado do Paraná


6,9% dos vereadores eleitos no Paraná são negros



6,5% dos prefeitos eleitos no Paraná são negros



19,9% dos candidatos ao cargo de prefeitos e vereadores no Paraná são negros


E as diferenças não param por aí: ao mesmo tempo em que tem menos renda que as pessoas brancas, os negros também são as maiores vítimas da violência policial. No Paraná, onde quase 4 milhões de pessoas são negras, o cenário não é muito diferente: apesar de serem uma parcela menor da população, os dados são altos no que se refere a violações, e baixos no quesito representatividade. Algumas das situações que evidenciam essa disparidade são trazidas no material abaixo.


“Esses dados ajudam a explicar que o racismo ainda permanece muito presente no cotidiano da população negra. Existem muitos mais profissionais com nível superior na população branca do que na negra. Mas mesmo os negros que concluíram a graduação têm mais dificuldade de inserção no mercado de trabalho do que uma pessoa branca que tenha a mesma formação. Isso por causa do que chamamos de “racismo institucional”. As pessoas nem percebem, mas fazem escolhas a partir da raça. É isso também o que acontece com a violência que acomete a juventude – nossos jovens negros morrem muito mais do que nossos jovens brancos” - Lucimar Rosa Dias, Coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da Universidade Federal do Paraná.


 


“A democracia real tem que ser entendida como a possibilidade de os cidadãos exercerem seus direitos e deveres. Mas para população negra do Brasil isso ainda está distante de ser concretizado. Entre aqueles que constituem o grupo dos 10% mais pobres com renda de 130 reais por pessoa, da família, a população negra segue sendo majoritária. E as atuais políticas de corte dos programas sociais vão impactar ainda mais a população negra, principalmente as mulheres negras. Das 14 milhões de famílias que são beneficiadas pelo Bolsa Família, 73% são negros, e 68% delas são chefiadas por mulheres negras, por exemplo” - Franciele Pereira do Nascimento, integrante da Rede de Mulheres Negras do Paraná


 

Edição: Daniel Giovanaz