Descaso

Inaugurado em 2010, hospital de Telêmaco Borba, no Paraná, nunca atendeu pacientes

Moradores precisam se deslocar até 130 km para emergências; Beto Richa (PSDB) diz que entregará obra até final do ano

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Unidade deveria atender sete municípios da região dos Campos Gerais / Sindisaúde

Projetado para atender 200 mil usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) de sete municípios, com quatro salas de cirurgias e pronto-socorro, 145 leitos e Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Essa é a estrutura do Hospital Regional de Telêmaco Borba, na região dos Campos Gerais, que foi inaugurado em 2010 e nunca recebeu um único paciente.

Desde 2009 os moradores do município esperam a conclusão das obras. Passados 8 anos e investidos mais de R$ 20 milhões, o hospital ainda não está pronto. Elaine Rodella, diretora do Sindicato dos Servidores Estaduais de Saúde do Paraná (Sindsaúde), comenta que, em 2015, quando o sindicato visitou o local, a obra parecia um escombro. “Para o hospital funcionar será necessário refazer uma série de coisas”, opina.

O governo do Paraná já prometeu diversas vezes a conclusão do hospital. O relatório anual de gestão da Secretaria de Saúde de 2012 previa que os atendimentos começariam em 2013. No relatório do ano seguinte, era informado que 93,11% da obra estava concluída, com projetos arquitetônicos e complementares para a instalação da UTI concluídos e projeto estrutural em andamento. Nos relatórios de 2014, 2015 e 2016 as informações são menos específicas, indicando apenas que o hospital está “em fase de conclusão”. Além disso, notícias veiculadas em diferentes jornais divulgam desde 2011 as promessas nunca concretizadas.

Em nota, a Secretaria de Saúde alegou que, na antiga gestão (2003-2010) , “o prédio foi pastilhado por fora para dar a sensação de obra pronta”. Informou ainda que a construtora garantiu a entrega do hospital até o final de 2017.

Entenda o caso

O hospital foi obra do ex-governador Roberto Requião e inaugurado no final de 2010 por seu substituto Orlando Pessuti, mas nunca chegou a funcionar. A diretora do Sindsaúde conta que o hospital estava pronto e tinha inclusive alguns equipamentos dentro.

A Secretaria de Saúde informou por nota que quando o atual governador Beto Richa assumiu o cargo (2011) foram encontradas “diversas irregularidades no projeto e na edificação”. Ainda de acordo com a Secretaria, o contrato com a empresa responsável foi rescindido e iniciado um novo processo de licitação, incluindo 20 leitos de UTI que não estavam previstos no projeto original.

Elaine Rodella critica a demora no processo de licitação, já que o contrato com a nova empresa foi assinado no fim de 2014. Ela também defende que o atendimento à população poderia ser feito enquanto o bloco anexo da UTI é finalizado.“Se nós temos um hospital construído em uma região carente de leitos, o que impede que a parte de leito cirúrgico, de clínica médica, de pediatria e de maternidade possa funcionar ao mesmo tempo que se constrói o bloco anexo da UTI?” questiona. Para a sindicalista, o Hospital Regional de Telêmaco Borba seria um símbolo do descaso do governo com a rede pública de saúde.

Região carente

Os moradores que utilizam o SUS contam com apenas um hospital privado que disponibiliza alguns leitos, uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e postos de saúde. Hoje, se um paciente da região precisa ser internado na UTI é necessário que seja transferido para a cidade mais próxima com leito disponível – muitas vezes para Ponta Grossa, a 136 quilômetros de Telêmaco Borba.

Foi o caso da filha de Marlene Bicudo que precisou ser transferida durante um parto prematuro. Marlene é moradora de Telêmaco Borba e conta que o atendimento de saúde é precário. “Quem tem plano de saúde é beneficiado, mas quem precisa ser atendido pela rede pública fica prejudicado”, opina.

O Hospital Regional de Telêmaco Borba foi projetado para atender a população de sete municípios que integram a 21ª Regional Estadual de Saúde, dentre eles Reserva e Imbaú, que estão entre os vinte municípios paranaenses com piores Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM).

Edição: Ednubia Ghisi