Perfil

Makota Kizandembu: uma vida de ativismo pelos direitos da população negra

“Somos um povo acostumado a resistir e transformar”, afirma Makota

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Desde os anos 1980, Makota Kizandembu é militante pelos direitos da população negra / João Sales

Desde os anos 1980, Makota Kizandembu é militante pelos direitos da população negra. Na época, com seus 20 e poucos anos, começou a atuar como figurinista de teatro e logo encontrou o movimento negro. De lá pra cá, foram diversas organizações pelas quais passou, contribuindo para o surgimento de várias delas.

Nascida e criada em Belo Horizonte, estudou em escola pública a maior parte da vida. Foi para um colégio particular no ensino médio e depois para a faculdade, onde não encontrou quase nenhum estudante negro. Fez engenharia elétrica, mas depois se formou em moda, para “poder discutir de igual pra igual” com desenhistas-de-produto, criadores e figurinistas. “Porque a área de moda é muito elitista”, aponta. E é nessa área, após os anos 2000, que ela concentra boa parte de sua militância política, sobretudo quando resgata a moda afrobrasileira como expressão cultural.

“Moda afro não é o que se pensa, algo exótico, roupa estampada e turbante colorido. Ela é uma afirmação da nossa brasilidade, da nossa africanidade. Não existe uma sem a outra. É uma moda que veste qualquer pessoa, criança, jovem, adulto, pessoas de qualquer tom de pele”, destaca. 

Candomblé

“Candomblé, para mim, não é uma religião, mas uma tradição de matriz africana. Você aprende a ser, existir, comungar com a natureza, se vestir, comer”, defende. Confirmada em 2007, Tania Cristina Silva de Oliveira, como era conhecida, passou a ser chamada de Makota Kizandembu. 

Ela explica que Makota é o cargo do Candomblé de Angola e Kizandembu é o nome de tradição, que ela assumiu após ser confirmada. “Esses espaços chamados Terreiros mantêm vivas parte das tradições que lá estavam na África, ou que lá estão”, 

Conjuntura

Preocupada com o cenário político do país, Makota critica o governo golpista de Michel Temer. “A gente vinha avançando, mesmo que timidamente. Se eu não estudei com cotas, os meus filhos poderiam estudar. Se eu não estudei história da África, meus filhos poderiam estudar. Com esse golpe os direitos todos estão indo por água abaixo”, desabafa. “Mas somos um povo acostumado com a resiliência, um povo acostumado a resistir e à transformação”, complementa. 

Atualmente, com 54 anos, é empreendedora e atua como Diretora de Políticas para Igualdade Racial, na Prefeitura de Belo Horizonte. Tem formação em direitos humanos e políticas públicas de gênero e raça. Makota Kizandembu integra o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana e da Associação Nacional da Moda Afrobrasileira. 

 

Edição: Joana Tavares