MÚSICA

Lirinha: “A censura está viva como ferramenta de dominação”

Cantor falou sobre sua aproximação com o MST e a importância da arte em tempos de golpe

Brasil de Fato | Natal (RN)

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Em carreira solo desde 2010, o artista segue com sua arte, poesia e música aliada à militância política. / Levante Popular da Juventude - RN

O Brasil de Fato Pernambuco entrevistou o artista pernambucano José Paes de Lira Filho, o Lirinha, durante sua participação na 1ª Feira de Produtos da Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Norte, no mês de setembro. Lirinha é natural de Arcoverde, no Sertão de Pernambuco, e é conhecido por sua diversidade artística: é cantor, poeta, ator e compositor. Foi no grupo Cordel do Fogo Encantado que se tornou mais conhecido nacionalmente, mas desde criança expressa sua veia artística através da poesia.

Em carreira solo desde 2010, o artista segue com sua arte, poesia e música aliada à militância política. Na conversa, ele falou sobre como se deu aproximação com o MST e seu encantamento ao conhecer as ações do movimento. Também sobre a importância da luta, principalmente nos dias atuais pós-golpe. E da importância da arte para o fortalecimento dessa luta, alertando para as censuras vividas nos últimos tempos contra artistas de diversas áreas.

Brasil de Fato – Como se deu sua relação com o MST e como faz da música com militância?

Lirinha - Conheci o MST foi na cidade em que nasci, Arcoverde. Foi uma grande surpresa conhecer aquele espaço tão diferente das outras reuniões na minha cidade. O dia foi inesquecível! Fui levado por Lula Calixto, que dava aulas de samba de coco na escola do assentamento Pedra Vermelha, do MST, um assentamento muito antigo já fruto da histórica luta em Pernambuco pela reforma agrária. E ao chegar na sala de aula, todas as crianças estavam com mamulengo [bonecos] tendo aula de português.

A professora era incrível, ela que tinha convidado Lula Calixto para dar aula sobre samba de coco, sobre a história daquele lugar, porque as músicas do samba de coco de Arcoverde, o Raízes de Arcoverde, trazem esses elementos da formação daquela região. Me encantei, e por isso, nunca mais perdi o contato, a relação. Ela se intensificou de dois anos para cá, quando comecei a participar de encontros, de debates, palestras e feiras organizadas pelo MST. Me identifico, acredito que tudo que sonho de melhoras pro país que vivo passa pelas demandas e pelos sonhos do Movimento Sem Terra.

BdF – De que forma sua relação com o cordel inspirou tua formação como artista?

Lirinha - O contato com a poesia dos violeiros e repentistas foi muito forte pra mim. Foi determinante porque a minha família, meus avós, gostavam muito e realizavam encontros de cantoria. Então desde os nove anos já estava começando as primeiras apresentações. Não sei o que me levou a decorar as poesias, qual foi o incentivo exatamente, porque me diferenciei nesse momento dos meus amigos da mesma idade, mas isso aconteceu e eu não consegui mais ser algo sem esses elementos. Hoje me sinto mais. Adquiro uma consciência responsável de ser guardião de segredos surpreendentes.

BdF - Quais os maiores desafios para os artistas nesse momento político que estamos vivendo?

Lirinha - Um momento que exige conhecimento histórico nosso, e quando ele não está disponível precisamos descobrir e investigar, porque a censura ela não morre com o fim da ditadura militar. Ela se transforma, ganha outros elementos e agora ela mostra sua força e o quanto está viva como ferramenta de dominação. Não devemos esquecer Gregório Bezerra ou de Graciliano Ramos, por exemplo, que foi preso quase por dois anos sem ter sido apresentado prova alguma contra ele, fruto do conteúdo de formação artística.

Então, somos descendentes dessas injustiças, estamos nos deparando com essas elas e acho que é se fortalecer para lutar. Saber que as coisas podem tomar rumos mais difíceis ainda, dessa censura ser mais estabelecida e até de uma forma aberta, por conta do apoio dos meios de comunicação a esse golpe que sofremos. Eu sinto que as grandes lideranças indígenas, as lideranças da luta pela reforma agrária nunca foram abandonadas pela censura. Talvez em nosso momento artístico é que temos pensado que ela não existisse, mas está aí.

*Colaborou Catarina de Angola

Edição: Monyse Ravena