Cuba

Um ano da morte de Fidel Castro: quais os caminhos e desafios da Revolução cubana?

Frei Betto e a comunicadora cubana Llanisca Lugo falaram com o Brasil de Fato sobre o futuro e o presente da ilha

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Cortejo dos restos mortais de Fidel Castro Ruz (1926-2016), que percorreu cidades cubanas / Ladyrene Pérez/ Cubadebate

Um ano após a morte do líder da revolução cubana, Fidel Castro Ruz (1926-2016), muito se especula sobre os rumos da ilha socialista. Para falar sobre os rumos políticos do país caribenho, a Radioagência Brasil de Fato conversou com a comunicadora cubana Llanisca Lugo do Centro Martin Luther King Jr. e o escritor brasileiro Frei Betto.

O teólogo e escritor brasileiro Frei Betto, que acompanhou o processo revolucionário desde o início, comenta a influência que Fidel segue tendo na ilha: "Eu creio que o Fidel deixou muitos legados, talvez o mais importante dele é comprovar, através do processo revolucionário cubano, vitorioso em 1959, que é possível sim um país latino-americano sair da órbita do controle dos EUA e da hegemonia capitalista."

No ano que vem, Cuba realizará eleições presidenciais. Pela primeira vez, nenhum Castro vai participar da disputa, uma vez que o presidente Raúl Castro anunciou sua retirada do poder.

Apesar das especulações em torno do assunto, Llanisca não considera a possibilidade de um rompimento da ilha com seu caráter socialista, já que, de acordo com ela, há uma grande renovação de militantes dentro da revolução. 

"Temos que construir unidade revolucionária, sabendo que as contribuições de cada força, de cada ator social, de cada instituição são de diferentes naturezas e não devemos esperar homogeneidade, a mesma visão ou narrativa em todos os espaços, mas sim aproveitar as tensões criativas que possui qualquer processo revolucionário", disse Llanisca, quando questionada sobre os rumos políticos e sociais da ilha, um ano depois da morte de Fidel Castro.

A cubana considera que a ofensiva atual do capital é uma "agressão silenciosa", que aos poucos tenta implementar sua lógica desigual, na tentativa de naturalizar "grupos privilegiados, em detrimento de zonas cheias de empobrecimento e exclusão social".

Apesar desse diagnóstico, Llanisca afirma que o processo revolucionário se mantém firme e renovado: "Não acho justo dizer que Cuba vai abandonar o socialismo ou que Cuba vai ser capitalista, não é real, nem honesto com a quantidade do surgimento e efervescência de atores sociais novos que há em Cuba e também das organizações históricas que organizam o povo, as mulheres, os camponeses."

Compreensão semelhante compartilha Frei Betto, escritor do livro "O Paraíso Perdido: Viagens ao mundo socialista" e amigo de Fidel Castro. Ele explica o que considera é o novo cenário em que Cuba se encontra: "Eu creio que os cubanos estão empenhados em aprimorar o processo revolucionário, fazendo uma série de mudanças, próprias da época em que vivemos, como por exemplo a desestatização do país, a abertura ao investimento estrangeiro, abertura às iniciativas privadas, em setores de serviços, enfim. Há mudanças significativas, mas elas visam aprimorar o socialismo cubano."

Ele ainda alerta sobre uma possível ameaça imperialista de Donald Trump e afirma que os EUA devem pensar "três vezes antes de qualquer investida contra Cuba". "Qualquer ofensiva contra Cuba não é uma ofensiva de derrubar um governo, mas é uma tentativa de vencer a resistência de um povo, e isso a história demonstra que não é possível", afirma Betto.

A pequena ilha do Caribe ganhou, sob o comando de Fidel, visibilidade mundial e esteve envolvida nas grandes discussões geopolíticas do século 20. Para Llanisca, Fidel "expôs ao mundo inteiro as práticas de dominação promovidas pelos EUA e a colonização." 

A Revolução Cubana, vitoriosa desde 1959, carrega o legado de seu "líder máximo", Fidel Castro, que somando forças a outros revolucionários como Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raúl Castro, desenvolveram em Cuba uma política socialista, com erradicação do analfabetismo, reforma agrária, saúde para todos e uma forte resistência anti-imperialista.

*com a colaboração de Vanessa Martina Silva

Edição: Mauro Ramos