GÊNERO

Estudos de gênero e diversidade sexual sob a mira dos conservadores na UFBA

Atos e atividades formativas para barrar os ataques estão acontecendo há cerca de uma semana

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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Ato realizado na manhã da quarta-feira (22.11) reuniu dezenas de pessoas em defesa da democracia e da universidade pública no CFCH. / APUB Sindicato

Docentes, discentes e servidores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estão mobilizados para barrar a onda de ataques conservadores que vêm acontecendo dentro da instituição. O foco são as pesquisas de gênero e diversidade sexual, bem como as que versam sobre a teoria marxista. Os casos, que já eram de conhecimento interno, vieram à público após moção de repúdio emitida pelo Conselho Universitário da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Tal documento denuncia: “Em episódios recentes, verificamos ameaças de morte e outros tipos de violência contra uma de nossas docentes, pesquisadora do NEIM (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher); a tentativa de impedimento de defesa de uma dissertação de Mestrado de aluno do IHAC (Instituto de Humanidades, Artes e Ciências), tendo que solicitar a segurança da própria Universidade; e a perseguição e ridicularização de projetos de pesquisa e extensão que versam sobre essas temáticas”. 

Integrante e porta voz do Programa de Pós-graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismos (PPGNEIM), Maíra Kubik relata um episódio. “O projeto ‘Aceita!’, que debate gênero e diversidade sexual dentro da UFBA e é coordenado por mim, Graciela Natansohn e Leandro Colling sofreu chacotas e injúrias. E um dos formulários havia escrito que iam estourar nossos miolos. Isso se relaciona também com os ataques ao Museu de Porto Alegre, ao MAM - SP e à presença de Judiht Butler no Brasil”, afirma a docente. 

A docente amplia a reflexão sobre os casos, entendendo que “essa reação é um dos pilares do fascismo. Ele precisa enfrentar qualquer tipo de pensamento divergente acerca dos papéis estabelecidos entre homens e mulheres. Ao que também se associa o aprofundamento do racismo e do neoliberalismo. É um resposta aos avanços democráticos que tivemos na última década. O nosso campo dos estudos de gênero avançou muito. Eles querem passar o medo deles pra gente, que é o medo de serem livres. Mas não vamos deixar que isso aconteça”. 

Na última quarta-feira (22) pela manhã, foi realizado um ato em defesa da democracia e das universidades públicas na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. “Foi uma demonstração que conseguimos ampliar o debate, sair de cada núcleo e nos articularmos para além deles. Fazer isso para fora da universidade é o próximo passo. Estamos propondo um ato, nos próximos dias, em Ondina ou na Reitora, em defesa da universidade e da democracia”, observa Maíra Kubik. 

Entre outras atividades, o Grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS) da UFBA começou o curso de introdução ao pensamento de Judith Butler na última quinta-feira (23), com mais de cem pessoas presentes. O curso segue até janeiro de 2018 trazendo debates sobre temas importantes propostos pela filósofa. 

Na manhã da sexta-feira (24), dezenas de pessoas realizaram ato de apoio à Jornada “Pensamento Lésbico Contemporâneo”, que vinha sofrendo ameaças de grupos de direita. A jornada aconteceu nos dias 24 e25 com o objetivo de refletir sobre o estado da arte do pensamento lésbico na contemporaneidade, estimular a leitura de pensadoras lésbicas na busca da construção de novas epistemologias para os feminismos contemporâneos, além de articular a UFBA com os movimentos sociais lésbicos da Bahia. 

Caroline Anice, militante do Levante Popular da Juventude e da Frente Feminista da UFBA reflete sobra a importância de ações coletivas neste momento. De acordo com ela, “as ações conjuntas mostram que o movimento de mulheres se move na conjuntura, compreendendo que a partir de medidas coletivas é possível fazer o enfrentamento real aos retrocessos e medidas conservadora. O ato na manhã da sexta foi uma resposta às ameaças que a direita tem feito às universidades públicas e aos estudos de gênero. Isso está relacionado com o que está acontecendo em todo país”. 

 

Edição: Jamile Araújo