MÚSICA NO METRÔ

O Trabalho dos Trilhos

Músicos que trabalham no metrô do Recife estão atentos para não atrapalhar o sono ou telefonema dos passageiros.

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Repórter fotográfico do Brasil de Fato Pernambuco acompanhou a dupla Yalle e Batatinha durante parte da jornada de trabalho / PH Reinaux

- Boa Tarde Pessoal!!!!!

- Boa Tarde Pessoal!!!

- Eu sou Yalle e esse é meu amigo Batatinha, nós somos o Sapukai.

- Somos artistas de rua e gostaríamos de trazer um pouco de música para vocês.

- Podemos cantar???

- Podemos? 

- Podemos?

- Mas, mesmo assim, se alguém se incomodar, basta falar conosco que nós paramos imediatamente e saímos do vagão.

- Certo?

- Meu amigo Batatinha, vamos de quê?

E assim começa o dia de trabalho dos artistas de rua Yalle e Batatinha. Yalle, 27 anos, casado, tem quatro filhos. “Três são filhos de sangue e um de criação”. Batatinha há quatro anos trabalha nas ruas. “Eu tocava com uma parceira, Luiza, depois iniciamos esse projeto com Yalle”. Está no terceiro casamento e tem uma filha de 10 anos.



Trabalham oito horas por dia, seis dias da semana. Durante a viagens acontecem alguns blocos de música. No repertorio entra clássicos da música popular, gospel, brega e aquela música que faz lembra do amor. “Já fizemos vários passageiros chorar, levamos músicas e muita positividade”. Durante as apresentações sempre soltam “Radio MetroRec trilhando os caminhos do seu coração”.

Trata-se de uma rotina de trabalho bem difícil. Por diversas vezes não é possível suportar essa jornada semanal de trabalho. É preciso se alimentar bem, tomam muito chá de gengibre, maçã. Os músicos contam que já chegaram a fazer mais de 16 viagens em um dia. Tudo depende do fluxo de passageiros do metro, o vagão não pode estar muito cheio, nem muito vazio. É preciso tomar cuidado para não incomodar crianças dormindo, pessoas atendendo o celular.

Os artistas dividem o local de trabalho com os ambulantes e é bem tranquilo. Através de olhar, gestos, gentilezas os espaços seguem sedo respeitado. A condição de trabalhador, as obrigações e aquela nossa capacidade criativa de se virar com o que tem demarcam as regras de convivência.



Durante minha passagem com a dupla pelas linhas férreas da Região Metropolitana do Recife, conversei com vários trabalhadores e ouvi diversos relatos de conflitos entre ambulantes e os trabalhadores da segurança do metro. Hoje já existem alguns relatos de violência contra os músicos, o que deixa todos apreensivos. Complicado você sair de casa para trabalhar e voltar apanhado, desmaiado de choque. Com as mercadorias apreendidas. 

Ao final do dia de trabalho, chega a hora de contar o apurado. Tudo é repartido igualmente entre Yalle e Batatinha. Muitas moedas, o que certamente vai facilitar a rotina de trabalho dos cobradores de ônibus no Terminal Integrado. A unidade entre os trabalhadores da arte no metrô do Recife é algo marcante. Trata-se de uma proposta de trabalho justa, honesta e, apesar das incertezas, é a fonte de renda de diversas famílias recifenses.

Edição: Monyse Ravena