Distraídos Venceremos

Coluna | A saúde de Saul, o rei do trompete

O rei do trompete nos deixou há menos de um mês, no dia 1º de novembro

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Saul Trumpet abriu um bar que só dava prejuízo, mas que tocava jazz de domingo a domingo / Divulgação

Imagine um dos maiores músicos instrumentistas do Brasil. Imagine este músico tocando ao lado de multi-instrumentistas reconhecidos internacionalmente como Hermeto Pascoal e Arismar do Espírito Santo; dos fundadores da Banda Mantiqueira Nailor Proveta (saxofonista e clarinetista) e Walmir Gil (trompetista); ou ainda de gente do nível de Leny Andrade (cantora), Victor Assis Brasil (saxofonista), Waltel Branco (violonista e maestro), Mauro Senise (saxofonista e flautista) ou Nivaldo Ornelas (saxofonista e flautista). Sem exceção, todos aclamados músicos populares e de jazz no Brasil.

Agora, imagine este mesmo músico sem quase nunca ter saído do Paraná. Pense também que ele só conseguiu gravar três discos (o primeiro, quando beirava os 60 anos). E a cereja do bolo: pense que este músico abriu um bar em plena zona do meretrício curitibano, que só dava prejuízo, mas que tocava jazz de domingo a domingo. Foram mais de dez anos de música – de ponta – diária, só interrompida por um aneurisma cerebral, que o obrigou a fechar o bar.

Pois é, este músico existiu. Saul Trumpet é seu nome. Nascido em Bandeirantes, em 1943, filho de músico da Congregação Cristã (daí seu nome bíblico, referência ao primeiro rei hebreu), tocava escondido o bombardino do pai. Aprendeu trombone de pisto e trompete, tocando em carnavais do interior, balés, bandas de baile e bares à noite, até que chegou a Curitiba, em 1970 (após passar por Umuarama, Cianorte e Porto União).

Autodidata de origem como todo músico popular, teve oportunidade de estudar música apenas depois de se profissionalizar, a ponto de ser professor do Conservatório de MPB de Curitiba. Apegado a suas raízes, recusou o convite para integrar o conjunto de metais de Ray Charles. Talvez esta espécie de nacionalismo o tenha influenciado a se filiar ao PDT, chegando a concorrer a vereador.

Porém, foi, sobretudo, um músico – boêmio, é lógico – da classe trabalhadora. Sua condição de classe se refletiu na condição de sua saúde, ao final da vida. Acometido por um câncer de próstata, teve de esperar 3 anos para ser atendido pelo SUS. A partir daí, sua saúde só melhorava enquanto tocava. O rei do trompete nos deixou há menos de um mês, no dia 1º de novembro. Sua presença musical, no entanto, é imortal. Salve, Saul!

Para ficar por dentro:

Entrevista para o jornalista Herivelto Oliveira, em 2017, no programa “Brasil de cor”:

Bloco 1:  





Bloco 2: 





Bloco 3: 





 

Música “Curitiba vazia”, de Gérson Bientinez e Péricles de Mello, em homenagem a Saul Trumpet após sua morte:



 

*Ricardo Prestes Pazello é professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), secretário-geral do Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS) e militante da Consulta Popular.

Edição: Ednubia Ghisi