Luta

Acampamento do Levante organiza juventude da Zona da Mata de Minas

Evento de três dias analisou os desafios de ser jovem no Brasil

Brasil de Fato | Juiz de Fora (MG)

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“Resistir e Lutar: Juventude do Projeto Popular” foi o lema do acampamento / João Paulo Santana

Cerca de 100 jovens do campo, da periferia, secundaristas e universitários de Minas Gerais construíram, no último fim de semana, o 1º Acampamento do Levante Popular da Juventude da Zona da Mata. O evento, realizado no campus do IF Sudeste em Juiz de Fora, começou a receber, na sexta (1), as caravanas de Viçosa, Ubá, Carangola, Muriaé, Lima Duarte, Rosário da Limeira, Ponte Nova, Santos Dumont, Goianá e Coronel Pacheco. A programação, composta por mesas de conjunturas nacional e regional, rodas de conversa e oficinas de formação política se estendeu até a tarde de domingo (3).

“Resistir e Lutar: Juventude do Projeto Popular” foi o lema do acampamento, construído também por coletivos de jovens do MST, MAB e MAM. "Minas Gerais é um estado muito grande e, por isso, tem uma grande diversidade de juventude. Tem jovem no campo, na cidade, nas universidades e nas escolas. Isso traz a importância de a gente conseguir, de alguma forma, que as cidades que têm determinada proximidade consigam se articular para pensar na realidade e os desafios dessa própria região e como organizar essa juventude", afirmou a militante do Levante de Belo Horizonte, Ana Carolina Vasconcelos, que participou da mesa de abertura para discutir o que é ser jovem no Brasil. Ela acrescentou: “a gente parte da perspectiva de que nesse momento de retrocesso e de retirada de direitos o que vai trazer respostas e nos salvar é a organização popular, é a juventude organizada e construindo as transformações do nosso país”.

Com esse propósito, o acampamento distribuiu as especificidades de cada perfil de juventude em uma programação de intensa formação e capacitação política. Durante todo o sábado (2), as e os jovens se dividiram em rodas de conversa que discutiram a soberania hidro energética popular, o trabalho de base com arte e cultura nas periferias e, principalmente, o combate às opressões sofridas por jovens mulheres, negras e negros e LGBT’s.

A parte teórica do acampamento pôde ser colocada em prática nas oficinas realizadas ainda no sábado. O Levante Popular da Juventude tem como uma das principais características a utilização da agitação e propaganda como forma de diálogo com a juventude da classe trabalhadora. Por isso, as oficinas foram relacionadas com a batucada seguida das paródias feitas pelo próprio movimento, poesias políticas, místicas e teatro mudo, zines e muralismo.

“O Levante quer dizer que a juventude tem um projeto para o país. Temos as batucadas, fazemos nossas místicas e nossa agitação, e ao olhar para o nosso território a gente é capaz de afirmar que sabemos fazer política", destacou Luciléia Miranda, do Levante de BH, durante a mesa que encerrou a manhã de domingo, último dia do evento. Ao lado de Luciléia, as militantes Iara Cássia, de Viçosa, e Luiza Travassos, de Juiz de Fora, pontuaram o histórico de lutas da juventude da Zona da Mata e incentivaram reuniões por municípios para se pensar os desafios que devem ser superados em cada localidade. "É muito importante para a gente priorizar esses desafios e tentar traçar uma jornada de lutas para superá-los. Eu boto muita fé que o Levante de Juiz de Fora, por exemplo, está criando uma referência na cidade. Estivemos na luta das greves gerais, construímos a Frente Brasil Popular junto com outros companheiros e dentro da universidade temos nos colocado como uma referência para o jovem estudante. Sabemos que temos muita luta pela frente, mas tenho certeza que vamos conseguir realizar todas elas", afirmou Luiza.

Ato político de encerramento

Ao se identificar como um movimento de juventude que se nacionaliza a partir da luta, de uma juventude negra da periferia dos centros urbanos, que é assassinada pela polícia e luta pela sua desmilitarização e pelo fim da opressão contra todas as minorias, o Levante assume um compromisso com a construção de um projeto de Brasil mais justo, democrático e com mais direitos ao povo brasileiro. Desta forma, a militância do Levante na Zona da Mata se colocou o desafio de dialogar com o município de Juiz de Fora durante o 1º Acampamento Regional.

Para encerrar o evento, a juventude do Projeto Popular foi até a Escola Estadual Fernando Lobo, no Bairro São Mateus, uma área nobre da cidade, para deixar a sua mensagem. O muro da escola, que há alguns meses foi alvo de uma pichação com dizeres racistas, recebeu a arte de muralismo a partir das mãos do Levante. “Juntos somos mais fortes: + escolas, - prisões” foi a frase escolhida para ser pintada na escola pública, durante a tarde de domingo. A mensagem “+ escolas, - menos prisões” estava também na faixa produzida durante as oficinas junto com afirmação “Juventude contra a redução”. O material denunciava o avanço do projeto que propõe a redução da maioridade penal e ameaça a juventude negra, pobre e periférica brasileira. As e os jovens do Levante estenderam a faixa por algumas horas em um viaduto que corta a avenida Presidente Itamar Franco, uma das mais movimentadas em Juiz de Fora, também no Bairro São Mateus.

Militante da Frente Territorial do Levante em Viçosa, Luana Sabino avaliou que o acampamento teve uma extrema importância na região e cumpriu o dever de incentivar a organização da juventude. “Eu acho que esse acampamento veio para dar um baque nos militantes da minha cidade e nas pessoas que vieram conhecer o movimento. Porque, pelo que eu já conversei com algumas, elas mostraram que adoraram e agora querem se organizar no Levante. Viçosa precisava disso”, contou.

Edição: Joana Tavares