Previdência

Apesar de adiamento, entidade não descarta manobra para votar reforma da Previdência

CUT e MST avaliam que governo não tem número suficiente para aprovar medida; mobilização deve se manter

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Os manifestantes se reuniram em frente a sede do INSS em São Paulo e caminharam até a Prefeitura Municipal / Júlia Dolce

Centrais sindicais e movimentos populares avaliaram o anúncio do adiamento da votação da reforma da Previdência, feito pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB), na tarde desta quarta-feira (13) como uma vitória parcial, fruto de mobilizações que vêm ocorrendo ao longo dos últimos meses.

“Eu acho que demonstra que a nossa luta está surtindo efeito, o governo não conseguiu apoio necessário na sociedade e isso reflete no posicionamento dos parlamentares que, mesmo com a pressão e a chantagem do governo, a pressão dos empresários que financiaram esses deputados, eles não querem entrar nessa bola dividida”, avalia Douglas Izzo, presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT-SP). 

Apesar do adiamento, Izzo não descarta uma possível manobra do governo golpista de Michel Temer (PMDB) para votar a medida ainda este ano. 

“Nós entendemos que o governo não tem os votos [necessários para aprovar a reforma], porque se tivesse, teria colocado em votação, mas, de qualquer forma, uma vez golpista, sempre golpista e nós temos que ficar de olho e atento”, afirma.

Durante entrevista coletiva concedida à imprensa, Jucá afirmou que “o mercado sabe que o governo está fazendo um esforço grande para ter o número, mas botará para votar a reforma no momento em que tiver os votos”.

Para Gilmar Mauro, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a declaração do líder do governo no Senado revela o interesse empresarial por trás da aprovação da medida. 

"Uma prova cabal de que o capital financeiro está por trás da reforma da Previdência e que as bancadas eleitas pelo capital financeiro são reféns hoje desses que os elegeram e, possivelmente, não colocarão recursos nas próximas campanhas", diz. 

Gilmar Mauro ainda ressalta a importância dos movimentos se manterem mobilizados.

"Então, nós temos que continuar preparados e mobilizados porque efetivamente esses fantoches do capital financeiro talvez queiram colocar de fato em votação no próximo período. Só a luta e a mobilização impedirá mais essa destruição de direitos no nosso país", reforça.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles discordou do posicionamento de Jucá e disse que o governo continua trabalhando para votar o texto que altera as regras para a aposentadoria o mais rápido possível. 

Mobilização

Nesta quarta-feira (13), a Frente Brasil Popular realizou ato em frente ao Instituto Nacional de Seguro Social de São Paulo (INSS), no centro da cidade, contra a votação da medida. 

A ação também faz parte da semana de mobilizações nacional realizada pela CUT. O adiamento da votação dificulta o cenário para o governo aprovar a proposta em 2018, na avaliação Douglas Izzo: 

“O ano que vem tem eleição e votar uma matéria tão explosiva e polêmica como essa, o governo vai ter mais dificuldade. De qualquer maneira, nós continuaremos em alerta e esse final de ano e início do próximo ano vai servir para a gente continuar a fazer todo um trabalho de esclarecimento das armadilhas que o governo tenta apresentar criminalizando e dividindo os trabalhadores, dizendo que servidores públicos são privilegiados.”

Os movimentos campesinos também marcaram presença na mobilização, mesmo com as alegações de que a atual proposta não afetaria a aposentadoria especial dos trabalhadores rurais. Para Cristerlei Knop, do MPA, o Movimento dos Pequenos Agricultores, os camponeses ainda seriam muito afetados pelas mudanças. Por esse motivo, o MPA vem realizando, há dez dias, uma greve de fome contra a aprovação da reforma.

"No início da greve, a proposta estava centralizada naquilo que o governo vinha mentindo nas mídias, dizendo que os trabalhadores rurais estavam fora quando, na verdade, ele tem em mãos uma emenda aglutinativa que transforma a contribuição dos camponeses em mensal e por, no mínimo, 15 anos. Ou seja, a gente tem dito que, da forma como está posta, a reforma pode tirar de, no mínimo, 70% dos agricultores da possibilidade de se aposentar", disse. 

O recesso parlamentar terá início no dia 23 de dezembro. A previsão é de que deputados e senadores retornem às atividades no início de fevereiro. Mas, de acordo do Jucá, pode ser que haja uma convocação extraordinária em janeiro para votar a reforma da Previdência. 



*Com colaboração de Julia Dolce

Edição: Vanessa Martina Silva