Reforma trabalhista

Com fim de imposto obrigatório, sindicatos terão que se reinventar

Entidades vão ter que criar novas formas de arrecadação para se manter financeiramente

Ato das centrais sindicais no 1º de Maio em São Paulo (SP)
Ato das centrais sindicais no 1º de Maio em São Paulo (SP) | Crédito: Mídia Ninja

O fim da obrigatoriedade do imposto sindical, medida que passou a vigorar no dia 11 de novembro com a reforma trabalhista, vai trazer grandes desafios para o sindicalismo brasileiro.

Nivaldo Santana, vice-presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) afirma que a mudança foi uma das grandes perdas do movimento sindical após a aplicação de uma agenda econômica ultraliberal no país pelo governo golpista de Michel Temer (PMDB).

"O fim da contribuição sindical também se insere nesse grande objetivo do governo, que é atacar os direitos, os sindicatos e também atacar a Justiça do trabalho. Na nossa compreensão, essa foi uma derrota importante que vai trazer impactos muito graves para o sindicalismo brasileiro", diz o sindicalista.

A contribuição incidia uma vez por ano e recolhia, de cada trabalhador, o equivalente a um dia de trabalho.

Santana, que apoia a contribuição sindical compulsória, afirma que um dos primeiros efeitos do fim da obrigatoriedade do imposto vai ser a dificuldade de sustentação financeira das entidades.

Historicamente, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior central sindical brasileira, defendeu o fim da obrigatoriedade do imposto sindical. No entanto, a central defendia uma transição gradual para que as entidades pudessem se reorganizar no novo modelo. No último mês, a CUT teve que reduzir seu quadro de funcionários por meio de um Programa de Demissão Incentivada.

Em uma linha similar, Armando Boito, professor de Ciência Política da Unicamp, considera que o fim da contribuição compulsória pode dar mais autonomia às entidades em um sistema sindical muito dependente do Estado.

"O imposto sindical está dentro deste sistema e participa de sua ambiguidade porque ele é uma vantagem, pelo menos aparentemente, porque dá meios financeiros para os sindicatos funcionarem; mas há uma outra face da moeda que é que ele fortalece a dependência dos sindicatos diante do estado. Com uma canetada, você tirou as finanças dos sindicatos", pontua o professor.

Novas formas de arrecadação

Boito afirma que agora o movimento sindical vai ter que organizar suas bases para tentar superar esta cultura de dependência. Ele pondera que movimentos populares do campo ou mesmo o movimento estudantil conseguem se manter financeiramente sem a existência de um imposto obrigatório.

"O mais importante agora é saber como o sindicalismo vai reagir ao fim do imposto. Sejam quais forem as dificuldades, imaginar um atalho que seria de se pendurar no estado burguês, que te livre do trabalho imenso e complexo que é organizar os trabalhadores e contar com as forças deles, para mim, é imaginar uma fantasia."

Santana, dirigente da CTB, aposta em novas formas de financiamento das entidades sindicais.

"Os sindicatos, em geral, vão precisar readaptar a sua atividade. Eles vão ter que se reinventar porque, ao lado da reforma trabalhista e sindical, nós também estamos vivendo em um processo de aprofundamento da reestruturação produtiva com a chamada 4ª revolução industrial — ou seja, a precarização do trabalho, a diminuição drástica do direito coletivo, o trabalho fragmentado, precário e parcial", afirma.

Santana e Boito participaram, na quinta-feira (14), de um debate realizado Sindicato dos Advogados de São Paulo. Abaixo, assista ao debate na íntegra.

Editado por: Mauro Ramos

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