Tragédia de Mariana

Artigo | Sô Murilo, como sempre, é ele por ele

Conheça esse canoeiro de 92 anos, que é “nativo do rio”, mas não reconhecido como atingido pela Samarco

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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“Eles dizem que é pra eu ficar tranquilo, que vou receber. Eu tô esperando, mas o ano lá vai. O tempo lá vai”, lamenta Sô Murilo / Nilmar Lage

“Eu tinha 21 anos quando entrei pra lá, ó”, Sô Murilo aponta as proximidades de sua primeira morada à beira do Rio Doce. Nascido na região de Joanésia, mas residente desde novo do Naque (leste de Minas Gerais), a experiência de seus 92 anos não o deixam esmorecer pelo abandono e falta de reconhecimento enquanto atingido pelo crime da Samarco. Já se passaram mais de dois anos desde o rompimento da barragem de Fundão e, depois de perder sua casa e criação de animais na lama tóxica, Murilo  continua na luta por seus direitos. Diante da ausência de culpados e de assistência,  segue como sempre foi: ele por ele.

Depois da baforada do cachimbo é que ele revela sua verdadeira identidade: José Lino Marques. Mas poucos o conhecem assim, pois Sô Murilo é como gosta de ser chamado. As lembranças seguem e ele descreve como eram aquelas terras 70 anos atrás: “Aqui só tinha estrada estreita, boi pra arrastar madeirão, burro puxando carvão. As estradas era isso aqui ó, canudinho, ó”. Revelando o estereótipo do mineiro bom de papo, Murilo vai falando e gesticulando. Mostra com as mãos, medindo o ar: uma medida que não é nem léguas, nem metros, nem pés, mas algo que parecia ser da largura de um trilho de boi mesmo, um canudinho.

Canoeiro aposentado e pescador apenas para subsistência, fomos ao porto onde fazia a travessia do Rio Doce. Curau, um amigo, estava lá na ativa. “Ê Curau, essa estrada aqui não é sua não”, diz. Ao mesmo tempo em que brinca com o amigo, alerta com a autoridade daqueles que sabem da mão e contramão do rio, que sabem evitar correntes indesejadas e os riscos de virar a pequena embarcação. Diante de toda sua  vivência, afirma: “O verdadeiro nativo do rio é eu, tem gente que nunca molhou o pé nas águas do rio e tá recebendo [a indenização]”. Sô Murilo esbraveja calmamente, referindo-se ao fato de até hoje não ser reconhecido como atingido e não receber a “devida” indenização.

“Mesma coisa de fezes de boi”

Morando sozinho ali pertinho do rio, Murilo não possui água encanada nem energia elétrica. Ele tem é disposição de sobra para buscar água na cidade para consumo próprio e em uma fazenda próxima para a criação. Fazendo uma cuia com as mãos e simulando que bebia algo, Murilo lembra que dia desses experimentou da água do rio, a mesma que ele usou por quase todos esses anos: “ô moço, é a mesma coisa de fezes de boi”.

Murilo não quis dar uma volta de canoa pelo rio. Com um olhar certeiro para aquela água marrom cor de rejeito, ele disse que está cada vez mais difícil navegar. “Na hora que você bate o catuá e firma, é só barro”. Todo bom canoeiro sabe que o catuá precisa tocar uma superfície firme para que o empurrão tracione a canoa no sentido certo. Ao tocar no barro, ele afunda e não cumpre sua função.

Murilo não é reconhecido como atingido, talvez por não ter mentido e confirmado que não é pescador e sim canoeiro aposentado. Mas como ribeirinho, depende da água do rio para beber, lavar, banhar, tratar dos animais, viver. “Eles dizem que é pra eu ficar tranquilo, que eu vou receber. Eu tô esperando, mas o ano lá vai. O tempo lá vai”, lamenta. O dinheiro de uma eventual indenização seria para comprar mais criações e talvez aumentar os ganhos.

Outro trago no cachimbo e o suspiro revela a pouca esperança de ver o rio limpo. “Se vier outra enchente de água limpa, pode ser que por cima limpa. Mas o fundo, o fundo não limpa fácil não”. 

Diz o folclore brasileiro da existência do Nego d`Agua. Um homem negro e alto, que nunca sai do rio e possui o corpo coberto por escamas. Sua função é assustar as pessoas que atravessam suas águas. Murilo talvez seja um Nego d´Agua paz e amor. Ele não vira canoas, mas gosta de cachaça, fumo e rio.

 

Edição: Joana Tavares