MEMÓRIA

Brasil Mulher: luta feminista por liberdade e anistia

Criado em 1975, jornal dedicou-se a temas voltados às mulheres, como jornada dupla de trabalho e sociedade patriarcal

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Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como "Amelinha", fez parte do jornal desde seu número 0
Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como "Amelinha", fez parte do jornal desde seu número 0 - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Corria 1975, declarado pela Organização das Nações Unidas como o Ano Internacional da Mulher. No Brasil – que vivia debaixo de forte repressão militar – grupos começam a se organizar cada vez mais em movimentos segmentados. Surge, por exemplo, o Movimento do Custo de Vida, em que grupos de mães da periferia pedem o congelamento dos preços de produtos de primeira necessidade, a criação de creches e reajuste salarial de acordo com a inflação.

É neste contexto que é criado o Brasil Mulher, um marco da luta feminista e da resistência à ditadura militar no país.

Duas militantes idealizaram o jornal: Terezinha Zerbini, que se destacou por levantar a bandeira da anistia, em um momento em que o tema ainda era pouco discutido, e a jornalista e professora Joana Lopes, que, interessada pelo movimento, propôs a criação de um veículo que divulgasse a causa, e tratasse também de temas voltados às mulheres.

“As duas se encontraram e resolveram fazer um jornal. Era o primeiro da imprensa feminista naquela época”, conta Rosalina Santa Cruz Leite, militante e ex-presa política, que logo passaria também a integrar o Brasil Mulher, editado bimestralmente entre 1975 e 1980.

A conjuntura de intensa movimentação política da época justifica o fato de que outras mulheres que passaram a fazer parte do jornal viessem da militância e da luta armada. Entre elas, estava Maria Amélia de Almeida Teles - a Amelinha -, então militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Amelinha, que é autora do livro Breve História do Feminismo no Brasil – e outros ensaios (Editora Alameda, R$ 60), já possuía experiência com a edição de jornais. "Antes da imprensa feminista, eu já era da imprensa clandestina. Eu fui presa, inclusive, por conta disso”, afirma. Amelinha foi presa em dezembro de 1972 e torturada por Carlos Alberto Brilhante Ustra, então comandante do DOI-CODI de São Paulo, que foi o único militar declarado torturador pela Justiça brasileira, em 2015. Editou o jornal Classe Operária, além de ter integrado um dos mais importantes jornais deste período: o Movimento.

Feminismo

A primeira edição do Brasil Mulher ainda não traz a palavra “feminismo”, devido à resistência que existia em volta do termo e ao fato de que algumas das participantes do jornal não se considerarem feministas. “Era um termo pejorativo, ridicularizado e amedrontador também. Muitas mulheres tinham medo de se declararem feministas e serem mal vistas até pelos homens de esquerda, porque havia uma rejeição enorme”, explica Amelinha.

“O coletivo se expandiu quando as ex-presas políticas começaram a entrar. Entramos como militantes mesmo, saídas da cadeia e que escolheram, a maioria, optar pela imprensa feminista, por uma militância feminista”, conta Rosalina.

A questão do feminismo chegou a provocar um racha na equipe. Terezinha (12/12/1928 - 14/03/2015), não gostava de se definir como feminista, pois, na época, achava um movimento muito radical.

“Aí o jornal não era pra ser feminista: foi aí que o carro pegou, entre nós duas”, afirma. O rompimento com o jornal ocorreu “porque elas queriam dizer que o Movimento Feminino Pela Anistia era um Movimento Feminista. Eu digo não”, afirmou, durante entrevista para a tese de doutorado de Rosalina em 2002. O registro da conversa está presente no livro Da Guerrilha à Imprensa Feminina (Editora Intermeios, R$ 45), escrito por Roselina e Amelinha em 2013.

O editorial da edição n.º 0, publicada em outubro de 1975, diz que o jornal tinha o objetivo de “ser mais uma voz na busca e na tomada da igualdade perdida. Trabalho que se destina a homens e mulheres. A época do beicinho está definitivamente para trás, porque milhares de mulheres em todo o mundo fazem uma jornada dupla de trabalho; mulheres que desejam trabalhar e serem independentes economicamente de seus maridos, são obrigadas a levar uma vida ociosa, sem nenhuma perspectiva de serem consideradas seres que pensam. Queremos usar a inteligência, informação e conhecimento em função da igualdade e, desde já a propomos, com equidade entre homens e mulheres de qualquer latitude”.

Londrina e São Paulo

O primeiro exemplar do Brasil Mulher foi editado em Londrina e transportado para São Paulo, cidade onde a divulgação podia ser maior e que abria a possibilidade de ampliar a adesão ao movimento. Em novembro de 1975, a sede do jornal já havia mudado para a capital paulista, onde vivia Terezinha, que abrigou as primeiras reuniões para discussão e elaboração das pautas. Todo o financiamento era feito pelas mulheres que faziam parte do jornal, assim como edição, diagramação e distribuição.

O foco do Brasil Mulher eram as mulheres que viviam nas periferias. O jornal era distribuído em clubes de mães na zona sul de São Paulo, na região do Campo Limpo. “Eu distribuía o jornal e falava assim: ‘vocês vão folhear esse jornal aí e depois vocês escolhem qual matéria a gente deve ler coletivamente, pra gente conversar sobre o assunto'”, conta Amelinha.

Dessa forma, o jornal foi responsável por introduzir na discussão pública temas como aborto, sexualidade, divórcio e direitos das mulheres, questões consideradas tabu na época. Rosalina conta que, nas conversas levadas para a periferia, eram discutidos temas como “o que é o orgasmo, o que é o direito ao prazer. "Optamos que essas reuniões fossem só de mulheres”.

O jornal também comprometeu-se em dar visibilidade às mulheres negras, o que foi feito já na primeira capa do jornal. “É interessante já ter uma mulher negra na capa. Uma jovem, grávida, descalça, brincando com uma criança”, afirma Amelinha. Para ela, esse “feminismo ainda muito incipiente” mostra que já havia um “compromisso grande com o movimento popular, com a periferia, com as mulheres mais pobres; por isso nossa posição de dar visibilidade às mulheres negras”.

Rosalina diz que o jornal "a ditadura achava que as mulheres não faziam uma luta tão importante" e, por isso, a censura agia menos. E, por ser um periódico que não chamava tanta atenção do governo militar, o jornal corria em apoio a outros veículos independentes, quando eles eram alvo de censura.

Uma questão política

Até o encerramento do jornal, em 1980, foram publicadas 20 edições (16 edições regulares e quatro denominadas “extras”). Ao longo desse período, o jornal dedicou-se a temas especialmente ligados às mulheres, como a jornada dupla de trabalho e o questionamento da estrutura patriarcal da sociedade.

Rosalina diz que o jornal levantou questões sobre o machismo dentro da própria esquerda. "Até que ponto eles [os homens da esquerda] poderiam se dizer socialistas, revolucionários, se eles não respeitavam suas mulheres?”, relembra Rosalina. Nesse processo, o jornal fez denúncias de casos de abuso de envolvendo líderes dos movimentos sociais, o que provocou uma forte repercussão. Mesmo dentro do movimento armado de resistência a ditadura, conta Rosalina, "sempre [existiu] uma posição subalternizada, de reprodução da sociabilidade que elas tinham, de cuidar da casa, fazer a comida, participar da mesa como secretária e não como protagonista”.

Um tema recorrente era o da relação da mulher com o trabalho, “que é uma categoria importantíssima para as marxistas. Era discutir a libertação das mulheres pelo trabalho, a necessidade de as mulheres não serem donas apenas do seu corpo, mas donas de sua independência, de sua autonomia e que isso se fazia pela inserção no trabalho”.

O jornal também ressaltou o caráter político do feminismo. Uma outra questão recorrente, diz Rosalina, foi a da internalização do machismo. Essa internalização é “algo que as mulheres acabam tratando no seu privado, como algo da personalidade das mulheres e não como uma questão política, que precisa ser tratada do mesmo jeito que as outras questões.

Rosalina Santa Cruz Leite, militante, ex-presa política e uma das integrantes do Brasil Mulher/Reprodução

Uma decisão importante do Brasil Mulher foi a de reforçar o caráter de militância autônoma, sem ligações de subordinação a correntes e partidos. A ideia era evitar que o grupo e o jornal se tornassem “correntes de transmissão" das organizações em que a mulheres que faziam o jornal participavam. "Que elas fossem protagonistas e não representassem o que os homens da suas organizações discutiam”, diz Rosalina.

Recepção

Rosalina explica que a boa recepção do Brasil Mulher aconteceu justamente por conta da criação do diálogo com as mulheres da periferia, que passaram a ser constantemente retratadas nas páginas do jornal. "Elas começaram a sentir que, pela primeira vez, saíam nos jornais sem ser na página policial”, conta.

E, mesmo que grande parte dos exemplares fossem distribuídos gratuitamente, uma parcela era comercializada em bancas. E o fato de as mulheres se reconhecerem cada vez mais naquelas páginas fez com que o jornal tivesse uma boa adesão, chegando à marca de 10 mil exemplares a cada edição. “Nós criamos instrumentos para publicizar ideias, desejos, reivindicações que já estavam embrionárias nas mulheres”, afirma Amelinha. "O que fica para mim de muito forte é a mobilização, a articulação de muita gente que não conseguia se articular e a partir do jornal começou a se articular", diz.

O último número do jornal foi publicado 8 de março de 1980, alguns meses depois da promulgação da lei de anistia, em 28 de agosto de 1979. Para Amelinha, o jornal teve muita importância, embora reconheça que as pautas do movimento feminista de hoje permaneçam bastante parecidas com as levantadas pelo Brasil Mulher. O “feminismo talvez tenha avançado muito, porque hoje tem milhares de coletivos feministas por toda parte, mas a parte dos direitos está muito parecida. As pautas estão muito parecidas. A gente conquistou muita coisa, mas efetivamos ainda poucos direitos”, conclui.

 

Edição: Opera Mundi