Coluna

O vendedor de tecidos

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"O Bairro de São José suava, inteiro, no rosto do vendedor de tecidos muitíssimo preocupado com a clientela que adentrava a loja às pressas"
"O Bairro de São José suava, inteiro, no rosto do vendedor de tecidos muitíssimo preocupado com a clientela que adentrava a loja às pressas" - Reprodução
O vendedor prometeu a revelação de um segredo

Os dedos da tua mão esquerda tocaram os dedos da minha mão direita enquanto decidíamos se a cambraia vermelha serviria ou não para a fantasia do sábado de carnaval. Àquele instante, o Bairro de São José suava, inteiro, no rosto do vendedor de tecidos muitíssimo preocupado com a clientela que adentrava a loja às pressas. Sua atenção oscilava entre a leveza da cambraia em nossas mãos e as dezenas de madamas, moçoilas e rapazotes que percorriam nervosamente os corredores à procura de cores e brilhos para uma melindrosa, um marinheiro, uma ciganinha lilás ou um faquir. Exasperados, os olhos do vendedor inundados pela umidade e pelo calor denunciavam seu desconforto com a profanação do sagrado, aqueles modos indelicados de puxar e repuxar os grandes rolos de seda, as rendas suavemente compostas por flores peroladas. Assim que decidimos pela cambraia para a camisa, o vendedor perguntou o que o outro vestiria. Explicamos, em resposta, que aquela cambrainha vermelha serviria para a minha roupa e para a tua, que seriam iguais, como em todos os sábados de carnaval desde que estamos juntos. Os olhos do vendedor de tecidos então se abrandaram doces sobre os nossos, numa interrogação ainda hesitante: – “são um casal”?  Diante da confirmação em nossos olhares, no momento em que, sob a cambraia, os dedos da tua mão esquerda tomaram os dedos da minha mão direita, o vendedor prometeu a revelação de um segredo, um sortilégio destas manhãs de fevereiro. Soltando os cabelos volumosos até agora presos num pitó encardido, limpando o suor do rosto com um lenço branco champanhe, deixando o salão principal aos cuidados de Jéssica – sua assistente de vendas, uma moça de pouco mais de vinte anos que sintonizava o som da loja numa rádio de brega quando seu nome atravessou toda a Rua da Praia, – “Jéssicaaaa”!, vindo retumbante da garganta do vendedor – o vendedor de tecidos abriu as cortinas rosadas que separavam o grande salão de um pequeno quarto de costuras onde um manequim negro portava um vestido longo e justo, absolutamente cinturado, de gripir amarelo resplandecente, com uma coleção de plumas brancas sobre as ombreiras, à semelhança das asas de uma ave mitológica. – “Serei um cisne”! – declarou, com alguma timidez, mas um orgulho indisfarçável. Nós dois, os dedos da tua mão esquerda enlaçados aos dedos da minha mão direita, sorrimos confidentes e cúmplices, testemunhas e partícipes do que reconhecemos, sem vacilar, como felicidade. Ela cintilava.

Roberto Efrem Filho – ou Beto, como gosta – é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavra.

Edição: Monyse Ravena